A Tragédia das Maldivas
Enquanto eu organizava os pensamentos para fazer mais um vídeo para publicar no Instagram sobre o acidente de mergulho nas Maldivas, ocorrido no dia 14 de maio de 2026, que gerou seis vítimas fatais, percebi que eu não conseguiria dar a minha opinião completa em um vídeo curto, como normalmente fazemos nesta rede social e em outras também. Essas redes sociais são meios de comunicação que não permitem explicações elaboradas e aprofundadas, podendo fazer com que as opiniões apresentadas sejam interpretadas equivocadamente. Por essa razão, decidi escrever esta postagem, ainda mais agora que temos informações fornecidas pela equipe que resgatou os corpos e divulgadas pela DAN Europe. Quero deixar claro que esta é apenas a minha opinião; não pretendo, com ela, desrespeitar a memória das vítimas nem a de seus familiares.
Importante: tentei escrever esta postagem de forma que pessoas não mergulhadoras possam entender minha posição, ao mesmo tempo em que ela não se tornasse simplória em demasia para os mergulhadores.
O acidente
No dia 14 maio de 2026 um grupo
formado por cinco mergulhadores estava abordo do barco Duke of York, no Atol de
Vaanu, nas Maldivas, este grupo era formado por:
- Monica Montefalcone - professora associada de Ecologia da Universidade de Gênova;
- Muriel Oddenino di Poirino - pesquisadora de Turim;
- Giorgia Sommacal - estudante de Engenharia Biomédica e filha de Monica;
- Gianluca Benedetti – instrutor de mergulho;
- Frederico Gualtieri - instrutor de mergulho e recém-formado em Biologia Marinha e Ecologia pela Universidade de Gênova.
Eles entraram na água para explorar um local de mergulho composto por cavernas submarinas, túneis naturais, paredões profundos e canais estreitos com fortes correntes. O mergulho iniciou na manhã de quinta-feira e, como até o meio-dia os mergulhadores não haviam retornado à superfície, eles foram dados como desaparecidos.
As Forças de Defesa Nacional das Maldivas (FDNM) iniciaram uma operação de resgate que envolveu sete mergulhadores. Durante essa operação, o corpo de Gianluca Benedetti foi encontrado dentro de uma caverna, a 50 metros de profundidade. Infelizmente, no dia 16 de maio, um mergulhador das FDNM faleceu acometido por Doença Descompressiva. A vítima foi o sargento-mor Mohammed Mahdi.
No dia 18 de maio, uma entidade especializada em segurança do mergulho, chamada DAN Europe, iniciou uma força-tarefa internacional envolvendo as FDNM e três mergulhadores da Finlândia especialistas em resgate em cavernas. Esses mergulhadores são:
- Sami Paakkarrinen;
- Patrik Gröngvist;
- Jenni Westerlunda.
Essa força-tarefa iniciou suas atividades de mergulho no dia 18 de maio e concluiu o resgate de todos os corpos em 21 de maio. Esses resgatadores, depois de todos os mergulhos realizados no local do acidente, divulgaram, por meio da DAN Europe, a possível dinâmica do acidente.
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| Fonte: Corriere Della Sera |
Segundo as informações fornecidas pela DAN Europe, por meio da CEO Laura Marroni, a hipótese levantada pelos resgatadores finlandeses é a de que, após entrarem na caverna, eles acessaram a 1ª câmara, área bastante ampla e bem iluminada. Por volta dos 50 metros de profundidade, encontraram o túnel de ligação com a 2ª câmara, que tem cerca de 30 metros de comprimento e não é linear, apresentando um formato em “S”.
Logo ao final desse túnel de ligação, as correntes faziam com que uma boa quantidade de areia se acumulasse na 2ª câmara, próxima à abertura do túnel de ligação. Esse acúmulo de areia cria um efeito óptico, dificultando a visualização da abertura do túnel de ligação para o retorno à 1ª câmara.
Devido à existência de um túnel sem saída, de fácil acesso, paralelo ao túnel de ligação e também ao efeito óptico que dificulta a visualização da abertura do túnel de ligação, Monica Montefalcone, Giorgia Sommacal, Frederico Gualtieri e Muriel Oddenino entraram equivocadamente nesse túnel, e foi nesse local que os quatro corpos foram encontrados. Nenhum dos corpos estava preso, enroscado ou ferido, e também não havia sinais de intoxicação por oxigênio.
O corpo de Gianluca Benedetti foi encontrado na 1ª câmara, próximo à abertura do túnel de ligação. Ele pode ter conseguido sair da 2ª câmara, mas seu suprimento de ar teria terminado antes de chegar à saída da caverna. Ou ele poderia estar esperando o restante do grupo, que explorava a 2ª câmara.
Pontos importantes a serem considerados
Levando em conta também as informações fornecidas pela DAN Europe, alguns pontos devem ser ressaltados. São eles:
- Como a entrada da caverna é ampla e bem visível, não parece que as correntes possam ter jogado os mergulhadores para dentro dela; assim, podemos acreditar que os cinco mergulhadores entraram voluntariamente;
- Provavelmente eles tinham lanternas, já que esses equipamentos estavam disponíveis na embarcação;
- Provavelmente não possuíam cabo-guia usado em mergulho em cavernas, que poderia tê-los conduzido de volta à entrada da caverna;
- Os socorristas finlandeses encontraram pedaços de cabos e linhas, provavelmente deixados pelos mergulhadores das FDNM durante as buscas;
- A bordo da embarcação havia apenas cilindros com ar ou Nitrox para mergulho recreativo, que não são adequados para mergulhos além dos 40 metros. Não havia Trimix, mistura respiratória usada para reduzir os efeitos da narcose nos mergulhos que superam os 40 metros de profundidade;
- Segundo o site da embarcação Duke of York, a empresa disponibiliza misturas respiratórias de ar ou Nitrox em cilindros de 15 litros, com torneiras simples ou duplas, quando solicitado pelos mergulhadores;
- A professora Monica Montefalcone possuía autorização para pesquisas científicas até 50 metros de profundidade. Essa autorização é importante porque, segundo as leis das Maldivas, mergulhadores podem mergulhar, no máximo, até 30 metros de profundidade;
- Na lista oficial de pesquisadores aprovados não apareciam os nomes de Giorgia Sommacal nem de Gianluca Benedetti;
- A Universidade de Gênova afirmou que esse tipo de mergulho não fazia parte do plano oficial de pesquisa.
Pensando sobre o ocorrido
Basic Cave Diving - Blueprint for Survival
Em 1986, Sheck Exley, um mergulhador de cavernas da Flórida (EUA), publicou o livro Basic Cave Diving – Blueprint for Survival. Nesse livro, entre outras coisas, ele elencou a falta de treinamento e a configuração inadequada dos equipamentos como as principais causas de acidentes no mergulho em cavernas. Essa publicação é considerada a gênese de todas as regras de segurança utilizadas hoje no mergulho técnico e no mergulho em cavernas.
Após a análise de diversos acidentes de mergulho ocorridos em cavernas, ele elencou as 10 maiores causas de fatalidades nessa atividade e sugeriu regras para que elas fossem evitadas. A regra número um diz que todos os mergulhadores devem usar um cabo-guia contínuo da entrada até o ponto mais distante atingido na caverna. A segunda regra afirma que todos os mergulhadores devem usar a regra dos terços para planejar seu mergulho; isso significa que devem usar 1/3 do ar disponível para entrada, 1/3 para saída e 1/3 para emergências.
Quando analisamos as informações oficiais que nos foram apresentadas, podemos concluir que a regra número um e a número dois não foram seguidas pelos cinco mergulhadores ao realizarem esse mergulho. Essa afirmação se baseia na informação de que eles não usaram um cabo-guia contínuo que os levasse até a saída da caverna e também no fato de que os cilindros de 15 litros disponíveis na embarcação de mergulho não ofereceriam o suprimento de gás adequado.
O suprimento de ar
Vamos considerar que cada um dos mergulhadores estivesse usando um cilindro de 15 litros. Esses cilindros, em média, são enchidos até uma pressão de 230 bar, o que forneceria 3.450 litros de ar para a realização do mergulho.
Vamos considerar que um mergulhador consuma 20 litros de ar por minuto na superfície. Aos 50 metros de profundidade, esse consumo seria de 120 litros por minuto, seis vezes maior devido ao aumento da pressão. Como o mergulho foi realizado em caverna — considero isso porque, segundo a equipe de resgate, eles entraram voluntariamente na caverna —, a correta administração do suprimento de ar indica que um terço do suprimento deve ser usado para descer e entrar na caverna, um terço para sair da caverna e subir, e o outro terço para emergências. Considerando que um terço de 3.450 litros é 1.150 litros e o consumo de 120 litros por minuto, cada terço do mergulho em questão poderia durar cerca de 10 minutos.
A entrada da caverna estava aproximadamente aos 50 metros. Considerando um ritmo de descida normalmente utilizado no mergulho, eles levariam cerca de 3 minutos para chegar à entrada da caverna, restando cerca de 7 minutos para nadar para dentro dela. Eles levariam 7 minutos para sair da caverna e então iniciar a subida, que, por sua vez, deveria ser realizada com uma velocidade de, no máximo, 9 metros por minuto, fazendo com que a subida levasse cerca de 6 minutos. Durante essa subida, eles deveriam parar aos 5 metros e permanecer nessa profundidade por 3 minutos (parada de segurança), fazendo com que a subida total tivesse duração de 9 minutos.
Somente pelo que descrevi nos parágrafos anteriores, podemos notar que a regra dos terços não poderia ser cumprida. Baseando-nos nela, eles teriam somente 3 minutos para subir usando o segundo terço; para completar os outros 6 minutos necessários para subir, teriam que usar o terceiro terço. Uma administração correta do suprimento de gás não deve ser realizada dessa forma.
Contudo, os problemas desse planejamento não se resumem apenas ao que citei até agora. Vamos ver por quê.
Limite sem parada e doença descompressiva
Para que um mergulhador possa fazer uma subida mantendo um ritmo de 9 m/min e depois realizar uma parada aos 5 metros por 3 minutos, ele precisa permanecer dentro dos chamados limites sem parada, ou limites não descompressivos, para a profundidade atingida. Se considerarmos os limites das tabelas da Marinha Americana, veremos que o limite sem parada para a profundidade de 50 metros é de somente 6 minutos. Isso significa que, nesse mergulho, ao estarem dentro da caverna e terem completado 6 minutos de mergulho, eles não poderiam mais fazer uma subida padrão; teriam que fazer uma subida com descompressão.
Mas o que é uma descompressão? Descompressão é um padrão de subida que faz o mergulhador parar, a partir de uma determinada profundidade, de 3 em 3 metros. Isso é necessário para que o excesso de nitrogênio absorvido durante o mergulho seja eliminado e um quadro potencialmente fatal de Doença Descompressiva seja evitado.
Imagine, então, que eles saíssem da caverna aos 17 minutos de mergulho (descida: 3 min; dentro da caverna: 7 min; saída da caverna: 7 min). Depois de ficar 17 minutos aos 50 metros, a subida em descompressão adequada poderia ter duração de 36 minutos.
A descompressão para esse mergulho, respirando ar comprimido (21% de oxigênio e 79% de nitrogênio), seria a seguinte:
- Subida 3min
- 18m 1min
- 15m 1min
- 12m 2min
- 9m 4min
- 6m 25min
- Total 36min
Para realizar os 17 minutos de mergulho aos 50 metros, mais a descompressão adequada, seriam necessários cerca de 3.000 litros de ar. Então, para que nesse mergulho a regra dos terços fosse obedecida, os mergulhadores precisariam de 9.000 litros de ar, valor muito superior aos 3.450 litros disponíveis em um cilindro de 15 litros cheio com 230 bar de pressão.
É importante deixar claro que existe outra forma de planejar o suprimento de gás necessário para esse mergulho (chamada de rock bottom). Porém, mesmo que esse outro método fosse utilizado, o suprimento de ar disponível em um cilindro de 15 litros continuaria sendo insuficiente.
Devo também lembrar que os três resgatadores finlandeses utilizaram um tipo de equipamento de mergulho que recicla e reaproveita o ar exalado pelo mergulhador para aumentar a autonomia do suprimento de ar. Esse equipamento é chamado de rebreather. Para se ter uma ideia, o modelo Hollis Prism 2 pode fornecer uma autonomia de mergulho que varia de 3 a 4 horas.
Poderíamos então concluir que, mesmo que os mergulhadores tivessem saído da caverna, eles não poderiam fazer uma descompressão adequada. Ao chegar à superfície, correriam enorme risco de sofrer Doença Descompressiva e falecer, como ocorreu com o mergulhador das FDNM. Isso aconteceria porque, como descrevi nos parágrafos anteriores, eles não teriam suprimento de gás necessário para realizar a descompressão adequada. Essa pode ser uma hipótese que explicaria o falecimento do sargento-mor Mohammed Mahdi.
Por qual razão estes erros aconteceram?
Temos respostas rápidas para essa pergunta, como falta de treinamento ou irresponsabilidade dos mergulhadores. Essas respostas são óbvias, porém não trarão nada além de críticas às vítimas, ferindo os sentimentos de seus familiares, já muito abalados. Elas também não ensinam nada que verdadeiramente ajude a evitar a repetição de acidentes como esse. Afinal, as causas que descrevi para essa fatalidade são conhecidas e evitadas com treinamento adequado desde a década de 1990, quando fiz meu primeiro curso de mergulho em cavernas.
Existe outra forma de analisarmos esse acidente. Para isso, devemos pensar em termos de um conceito chamado “cultura justa”.
O que é cultura justa?
Conheci esse termo por meio de um livro chamado Under Pressure: Diving Deeper with Human Factors, escrito por Garret Lock e publicado em 2019. “Cultura justa” não se trata de uma cultura de “não culpar ninguém”, pois termos responsabilidade sobre nossas ações é algo que nunca pode ser esquecido. “Cultura justa” trata-se de uma atmosfera em que as pessoas são verdadeiramente estimuladas a fornecer informações essenciais relacionadas à segurança. Quando um acidente é investigado, fazemos isso por duas razões: atribuir a culpa a quem ela cabe e entender os fatos ocorridos para que acidentes futuros sejam evitados. Quando o foco é atribuir culpa, o processo de investigação fica comprometido.
Ter um ambiente de “cultura justa” no mergulho permite identificarmos os erros cometidos que levaram a um acidente. E somente esse tipo de cultura em uma investigação possibilitará que novas regras e novos procedimentos surjam e, com eles, acidentes futuros possam ser evitados.
Quando a “cultura justa” não existe, as pessoas envolvidas no acontecimento que está sendo investigado não fornecem informações relevantes que, quando analisadas, possam verdadeiramente esclarecer os motivos que levaram aos erros cometidos. Sem um ambiente de “cultura justa”, não é possível saber que tipo de erro foi cometido, o que impede que cheguemos a um desfecho proveitoso da investigação.
O desfecho desejado é aquele que melhora o nível de consciência sobre os riscos e a segurança e permite que as informações relacionadas à segurança possam ser compartilhadas por diferentes meios. Esse fato é crucial, já que, em relação aos riscos envolvidos no mergulho, não é possível aprendermos tudo na sala de aula ou nos livros.
Mergulhadores e instrutores são relutantes em informar seus erros, pois existe o medo da punição, e assim o compartilhamento das informações é significativamente reduzido. Por essa razão, é necessário considerarmos que “errar é humano” e que qualquer pessoa pode falhar. Todas as organizações e empresas envolvidas no mergulho devem criar um ambiente propício para que a “cultura justa” se desenvolva. Isso ocorrerá garantindo a confidencialidade daqueles que fornecem as informações, assegurando que os envolvidos não sofram ações punitivas quando o erro cometido não foi intencional ou premeditado e, havendo necessidade de ações devido a um baixo desempenho do mergulhador, que essas ações não sejam apenas punitivas, mas também garantam o desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades do mergulhador envolvido.
Mas por qual razão erramos?
Eu acredito que, nesse acidente, a questão mais importante não sejam as questões técnicas, como possuir certificação, treinamento ou habilidades adequadas para planejar e realizar o mergulho em questão. A questão mais importante é que nós, seres humanos, cometemos erros que não são técnicos, mas causados justamente por sermos humanos.
Para entendermos aquilo que desejo expressar, é necessário sabermos a diferença entre habilidades técnicas e habilidades não técnicas. No contexto do mergulho, as habilidades técnicas podem ser exemplificadas pelas habilidades relacionadas com a operação do equipamento de mergulho ou aquelas necessárias para que determinada tarefa seja realizada durante o mergulho com segurança. Já as habilidades não técnicas são aquelas que garantirão que nós, seres humanos, ajamos de forma a aumentar a possibilidade de um desempenho seguro. São elas:
- Consciência situacional — habilidade para determinar, dentre as diversas informações presentes em um mergulho, quais são as mais relevantes no momento, mantendo nelas o foco e excluindo as irrelevantes;
- Tomada de decisão — após estar atento às muitas informações recebidas, é necessário que as decisões sejam tomadas de forma eficaz, considerando as informações relevantes;
- Comunicação — o conhecimento e as decisões tomadas precisam ser compartilhados de forma eficaz para que um modelo mental comum seja dividido entre todos os integrantes da equipe;
- Trabalho em equipe — os componentes de uma equipe precisam ouvir, questionar quando necessário e confiar nas decisões do líder, trabalhando efetivamente em conjunto para que o objetivo comum seja alcançado;
- Liderança — uma liderança forte e estável, capaz de transmitir clareza e confiança, é vital para que as ações que precisam ser executadas em tempo hábil sejam compreendidas corretamente;
- Administração do estresse — é fundamental reconhecer que o estresse limita as habilidades cognitivas e compreender a importância de manter a calma, independentemente da gravidade da situação vivenciada.
Além de controlarmos esses fatores humanos, também é importante entendermos quais tipos de erros humanos podem ser cometidos.v
Um "erro humano" é bem mais complexo do que pensamos
Existem duas formas de olharmos para o erro humano: uma em que vemos o erro como a causa de um incidente e outra em que vemos o erro de um indivíduo como a consequência de uma falha em um sistema. Quando o vemos da primeira forma, que infelizmente é a predominante, não teremos nenhum aumento efetivo da segurança e iremos apenas culpar o indivíduo.
Para entendermos melhor os diferentes aspectos que devemos levar em conta na análise de um erro humano, vamos considerar a situação de um motorista dirigindo acima do limite de velocidade permitido e considerar duas razões para isso:
- Ele está levando alguém para o hospital. Em uma circunstância normal este motorista estaria dirigindo dentro da velocidade limite;
- Ele sempre dirige além do limite. O faz por acreditar que está tudo certo e por estar habituado.
Ao analisarmos um comportamento humano, podemos dividir os erros em dois tipos: erros e violações. Se considerarmos que o motorista estava acima do limite de velocidade porque estava levando uma pessoa em estado grave ao hospital, podemos dizer que esse foi um erro de equívoco, cometido quando acreditamos estar fazendo a coisa certa; neste caso, salvar a vida de uma pessoa. Creio que todos nós pensaríamos que esse erro é “justificável”, mesmo que ele aumente muito o risco de um acidente de trânsito.
Se o motorista estivesse acima do limite de velocidade porque sempre dirige dessa forma, pensaríamos que ele está cometendo uma violação negligente, realizada sem refletir ou considerar as consequências. Tenho certeza de que nenhum de nós consideraria que ele acreditaria estar cometendo uma violação não intencional, na qual acreditaria estar fazendo o certo.
Mas proponho que pensemos da seguinte forma: vamos imaginar, hipoteticamente, que esse motorista cresceu e aprendeu a dirigir em uma cidade fictícia onde todas as pessoas dirigem em alta velocidade, e o número de acidentes é muito baixo, quase não ocorrendo mortes por essa razão. Nessa cidade hipotética, seria possível que a violação do motorista fosse não intencional? A resposta é sim. Essa violação é repetida devido a um fenômeno chamado “normalização do erro”, em que um erro se torna “normal” devido à sua repetição. Isso está baseado em um viés chamado “viés de retrospecto”, em que, todas as vezes que as pessoas dirigem em alta velocidade e nenhum acidente acontece, a repetição do erro é fortalecida.
Imaginemos agora que esse motorista vá para uma cidade onde todas as pessoas conhecem os riscos envolvidos em dirigir em alta velocidade. Ele seria considerado louco, imprudente, provavelmente seria multado e talvez perdesse sua carteira de motorista.
Vamos pensar desta forma para o acidente das Maldivas
A publicação do livro de Sheck Exley ocorreu em 1986. O termo “mergulho técnico” surgiu quase 10 anos depois, quando, em uma das edições da revista aquaCORPS, de 1995, seu editor Michael Menduno cunhou o termo. Ele o utilizou para descrever as atividades de mergulho SCUBA que extrapolavam os limites do mergulho recreacional, fossem esses limites relacionados à profundidade, ao ambiente, aos equipamentos ou às técnicas e procedimentos.
Enquanto isso, na Europa, Jacques Cousteau já explorava o mundo subaquático desde os anos 1940, e a empresa britânica Siebe Gorman licenciava a tecnologia do Aqua-Lung, ajudando a popularizar o mergulho na Inglaterra e no restante do continente nos anos 1950. Ou seja, muitas pessoas já realizavam mergulhos de exploração quase 50 anos antes de o mergulho técnico e suas regras surgirem.
Em 2016, em uma viagem da Planeta Mergulho ao Taiti, tive a oportunidade de ser o guia do grupo de mergulhadores da escola durante uma semana. Ao final de uma das manhãs de mergulho, fui convidado pelo dono da operadora de mergulho (um europeu) para realizar um mergulho entre 40 e 50 metros, com o objetivo de avistar os tubarões-martelo da região. Esse mergulho seria realizado com uma configuração de equipamentos (incluindo cilindros) semelhante à utilizada pelos mergulhadores falecidos nas Maldivas. Eu respeitosamente declinei o convite. Fiz isso por não considerar esse mergulho seguro. Mas por qual razão o dono da operadora e seus instrutores o considerariam seguro?
Voltemos ao nosso motorista que dirige em alta velocidade por acreditar que não está fazendo algo imprudente, e o faz porque aprendeu a dirigir em um contexto em que isso era normalizado. Agora pense na possibilidade de mergulhadores que se formaram em um contexto de mergulho em que realizar mergulhos profundos usando ar comprimido (deep air) e não observar as regras descritas por Exley era normal, contexto em que cada mergulho realizado dessa forma e bem-sucedido reforçava a normalização do erro por meio do viés de retrospecto. Para mergulhadores inseridos nesse contexto, um mergulho como o que me foi oferecido ou o que os mergulhadores italianos realizaram nas Maldivas pode ser considerado “normal”, mesmo que os resultados positivos dos mergulhos anteriores tenham acontecido por sorte e não por prudência.
Agora pense em um motorista que aprendeu a dirigir dentro das normas que todos nós consideramos seguras. Ele estaria em outro contexto, no qual o motorista que dirige em alta velocidade é considerado imprudente. Para mergulhadores que se desenvolveram em um contexto de treinamento em que as regras originadas no livro Basic Cave Diving – Blueprint for Survival são aplicadas estritamente — que é o meu caso e o de inúmeros mergulhadores brasileiros —, o mergulho realizado nas Maldivas é, sem dúvida, um mergulho arriscado e que não deveria ser realizado.
Minha explanação até aqui não tem como objetivo acusar ou recriminar os mergulhadores citados no acidente das Maldivas ou no convite feito no Taiti. Minha intenção é mostrar que, mesmo que esses mergulhadores sejam considerados imprudentes, é possível encontrarmos uma explicação mais profunda para o acidente que vitimou os cinco mergulhadores italianos, explicação que não envolve apenas as habilidades técnicas necessárias para realizar um mergulho profundo em caverna de forma segura.
E que apenas encontrar os culpados ou criticar as vítimas, sem que um trabalho educacional onde os riscos são mostrados e as formas de como minimizá-los são ensinadas, e somente uma narrativa acusatória seja priorizada, não nos trará mais segurança no mergulho.
Antes de encerrar, preciso fazer um esclarecimento: é importante que fique claro que mergulhadores europeus não são imprudentes. Vejamos todo o esforço da DAN Europe para organizar uma força-tarefa internacional a fim de que o resgate dos corpos fosse realizado com segurança. Além disso, uma das agências de treinamento mais antigas da Europa, a Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas, oferece treinamento em mergulho técnico para mergulhos em profundidades iguais ou superiores a 60 metros.
Isso demonstra que um grande número de pessoas e entidades se esforça para que conceitos equivocados, antes não compreendidos como tal, hoje sejam esclarecidos e contribuam para aumentar a segurança de todos os tipos de atividades de mergulho.
Considerações finais
Espero que a minha opinião sobre o fatal mergulho realizado no dia 14 de maio de 2026 contribua para uma discussão verdadeiramente benéfica e proveitosa para todos os mergulhadores e possa desestimular críticas e acusações vazias, incapazes de trazer algo positivo para aqueles que não estão envolvidos diretamente no acidente em questão.


Excelente explanação e interessante observações sobre o comportamento humano. Parabéns pela visão! Texto escrito com muita responsabilidade e conhecimento técnico.
ResponderExcluirAnderson, muito obrigado pelo elogio.
ExcluirAcho que esta hipótese é a mais plausível até este momento para explicar esta tragédia. Este comportamento humano de ir além dos limites recomendados pois rotineiramente já fizeram isso e nada de ruim aconteceu pode ser visto em todas situações possíveis... E como o instrutor Carlinhos conta, todo mergulhador já presenciou este comportamento entre mergulhadores: exposição a situações de risco desnecessariamente e diante da não ocorrência de um problema, recebendo uma confirmação que podem repetir sem problemas. Deixo aqui este outro artigo que também tenta trazer uma reflexão sobre o problema: https://www.outsideonline.com/adventure-travel/news-analysis/maldives-diving-accident-cave-tragedy/
ResponderExcluirMuito interessante o texto que sugeriste. O tema mais importante abordado, na minha opinião, é sermos honestos e deixarmos claro quando um mergulho ultrapassa nosso limite de conforto pessoal. Como digo muitas vezes: uma das coisas mais importantes que um mergulhado deve saber, é quando não mergulhar.
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