Aptidão Física - Introdução
O termo aptidão física pode ser definido como um conjunto de atributos
que um indivíduo possui ou adquiri e que se relacionam com a capacidade de
realizar atividade física e/ou exercício físico, assim como atividades
profissionais e recreativas sem atingir níveis elevados de fadiga. Para um
maior entendimento do termo atividade física é importante conhecermos a
diferença entre atividade física e exercício físico, atividade física é o
movimento corporal gerado pela contração muscular que eleva de forma
considerável o gasto energético, já o exercício físico é a atividade física
planejada, estruturada e repetitivamente executada para melhorar ou manter um ou
mais componentes da aptidão física.
Os componentes da aptidão física são: (1) Composição corporal, (2)
Aptidão cardiorrespiratória e (3) Aptidão muscular. A composição corporal esta
relacionada com a quantidade de gordura corporal e de massa corporal magra. A
aptidão cardiorrespiratória esta relacionada com a função de captação (sistema
respiratório) distribuição (coração e circulação sanguínea) e utilização
(musculatura) de oxigênio durante qualquer tipo de atividade. Na aptidão
muscular podemos incluir as adaptações relacionadas à força muscular como
também à flexibilidade.
Benefícios significativos para a saúde podem ser obtidos através da
prática de exercícios cardiovasculares com duração de 30 minutos de intensidade
moderada, três a cinco vezes por semana, juntamente com exercícios de
fortalecimento muscular e flexibilidade duas a três vezes por semana. É
importante ressaltar que maiores quantidades de exercícios e intensidade (exigência
de esforço) podem gerar maiores benefícios, assim como, que exercícios
vigorosos podem levar a lesões musculoesqueléticas ou eventos cardiovasculares
adversos em determinadas pessoas. Dessa forma é fundamental que para iniciar
qualquer programa de exercícios físicos um profissional de Educação Física seja
procurado.
Dentre os benefícios gerados por um programa de exercícios realizado
regularmente temos:
- Redução do risco de morte prematura;
- Menor risco de doenças cardíacas;
- Diminuição do risco de diabetes;
- Auxílio na redução da pressão arterial de pessoas hipertensas;
- Redução do risco de câncer de cólon e de outras formas de câncer;
- Ajuda no controle do peso;
- Redução da depressão e ansiedade;
- Ajuda a desenvolver e manter ossos, músculos e articulações saudáveis;
- Aumenta a qualidade de vida dos idosos.
- Promoção do bem-estar psicológico.
Além das questões citadas anteriormente, no que diz respeito ao
mergulho SCUBA temos alterações funcionais que levam a benefícios bastante
significativos, entre eles podemos citar:
- Menor consumo de ar/gás.
- Menor risco de doença descompressiva;
- Maior capacidade de solução de problemas;
- Melhor resposta a situações de estresse e pânico;
- Aumento da massa mineral óssea;
- Aumento da produção de calor durante o mergulho;
- Maior capacidade de lidar com os equipamentos devido ao peso;
- Menor probabilidade de câimbras.
- Sendo assim, apresentar aptidão física e participar regularmente de um programa de exercícios é benéfico para a saúde de forma geral e também para aspectos relacionados à segurança e maior diversão no mergulho SCUBA.
Assim como existem padrões que permitem a classificação dos níveis de
colesterol, glicose e pressão arterial também existem padrões que possibilitam
a classificação da aptidão física. Esses critérios de classificação da aptidão
física estão relacionados a baixos riscos de desenvolvimento de diferentes
patologias e até mesmo de redução da mortalidade.
Como exemplo deste tipo de relação com a saúde podemos citar um estudo
(JOUVEN e colaboradores, 2005) que avaliou os resultados de testes ergométricos
em esteira realizados por um grupo de 5713 homens (42 e 43 anos) no período
entre 1967 e 1972 e depois relacionou estes achados com a incidência de morte
nos 23 anos seguintes. Foi verificada uma ocorrência de 1516 mortes, sendo 400
de eventos cardíacos, os indivíduos que faleceram por eventos cardíacos na sua
maioria não conseguiram atingir durante os testes o valor de 85% da frequência
cardíaca máxima prevista e a frequência cardíaca em repouso era maior do que 75
batimentos por minutos.
Indivíduos incapazes de atingir 85% da frequência cardíaca máxima ou
que apresentam frequência cardíaca de repouso maior do que 75 batimentos por
minuto são pessoas que apresentam um baixo nível de condicionamento
cardiorrespiratório, aumentando de forma significativa seus riscos à saúde e
provavelmente os riscos no mergulho SCUBA.
Discutiremos no texto que segue critérios mais específicos de aptidão
física para cada um dos componentes do condicionamento físico relacionados com
a saúde e com um bom desempenho e segurança no mergulho SCUBA.
Aptidão Cardiorrespiratória
Este
pode ser considerado o componente mais importante da aptidão física, pois
representa a capacidade de organismo em realizar exercícios ou atividades
físicas dinâmicas envolvendo grandes grupos musculares em intensidade moderada
ou alta por períodos prolongados de tempo. Ela reflete a capacidade do coração,
dos pulmões e do sangue de transportar oxigênio para os músculos, assim como a
utilização do oxigênio pelos músculos ativos.
A
resistência cardiorrespiratória é representada pela quantidade de oxigênio
consumido durante o exercício, recebendo e denominação de consumo máximo de
oxigênio (VO2máx). O VO2máx pode ser expresso de forma
relativa ao peso corporal e reflete a quantidade em mililitros de oxigênio
consumida por minuto (ml/kg/min). Na tabela que segue temos a classificação dos
valores de VO2máx para ambos os sexos em diferentes idades.
Classificação
da Capacidade Cardiorrespiratória: VO2máx em ml/kg/min
|
|||||
Idade
(anos)
|
Fraca
|
Regular
|
Boa
|
Excelente
|
Superior
|
Mulheres
|
|||||
20-29
|
<=31
|
32-34
|
35-37
|
38-41
|
42+
|
30-39
|
<=29
|
30-32
|
33-35
|
36-39
|
40+
|
40-49
|
<=27
|
28-30
|
31-32
|
33-36
|
37+
|
50-59
|
<=24
|
25-27
|
28-29
|
30-32
|
33+
|
60+
|
<=23
|
24-25
|
26-27
|
28-31
|
32+
|
Homens
|
|||||
20-29
|
<=37
|
38-42
|
42-44
|
45-48
|
49+
|
30-39
|
<=35
|
36-39
|
40-42
|
43-47
|
48+
|
40-49
|
<=33
|
34-37
|
38-40
|
41-44
|
45+
|
50-59
|
<=30
|
31-34
|
35-37
|
38-41
|
42+
|
60+
|
<=26
|
27-30
|
31-34
|
35-38
|
39+
|
A
relação entre capacidade cardiorrespiratória e saúde está baseada em pelo menos
3 fatores: (1) baixos níveis de aptidão nesta variável estão associados com um
risco extremamente elevado de morte prematura por diferentes causas, (2)
aumentos da capacidade aeróbica estão associados com a redução de morte por
todas as causas e (3) altos níveis de aptidão cardiovascular estão ligados com
níveis mais altos de atividade física que, por sua vez, estão associados com
inúmeros benefícios á saúde.
Mergulhadores
SCUBA procuram manter níveis baixos de esforço aeróbico durante um mergulho
para dessa forma não terem um elevado consumo da mistura respiratória, este
fator aliado aos reduzidos valores de VO2 atingidos durante um
mergulho (quando o mergulho é comparado com exercícios em esteira rolante),
fazem com que o mergulho SCUBA seja uma atividade aeróbica de baixa
intensidade. O fato de na maior parte de um mergulho SCUBA o consumo do
oxigênio ser reduzido não significa que a capacidade de atingir
valores próximos ao máximo deva ser negligenciada, pois em algumas situações
(incluindo emergências) essa capacidade pode ser de vital importância.
Diferentes
trabalhos demonstram que o VO2 durante o mergulho SCUBA pode variar
entre 14 e 22 ml/kg/min e atingir valores máximos de 40 ou 55 ml/kg/min.
Considerando que para um reduzido consumo da mistura respiratória e manutenção
de uma respiração controlada durante um período submerso um mergulhador deveria
manter seu consumo de oxigênio entre 14 e 22 ml/kg/min, este mergulhador
deveria ter um VO2máx entre 30-45 ml/kg/min. Dessa forma ele seria
capaz de tempos de fundo mais prolongados, teria a possibilidade de atingir
valores elevados de VO2 em situações de maior exigência, teria um
controle adequado sobre a respiração e a flutuabilidade, teria uma grande
capacidade de solução de problemas, assim como diminuiria os riscos de Doença Descompressiva
(DD).
Levando
em consideração os dados citados anteriormente podemos de forma prática citar
que um indivíduo do sexo masculino pesando cerca de 70 quilos que seja capaz de
correr 2400 metros em um tempo entre 17-18 minutos terá um VO2 máximo
entre 30 e 47 ml/kg/min e uma mergulhadora com 60 quilos que possa completar a
mesma distância entre 12-17 minutos terá um VO2 máximo entre 31 e 45
ml/kg/min. Sendo assim, ambos apresentariam uma capacidade cardiorrespiratória
adequada para o mergulho.
Composição Corporal
A
obesidade é um problema sério para saúde, pois é capaz de reduzir a expectativa
de vida e aumentar os riscos de problemas cardiovasculares, hipertensão
arterial, diabetes do tipo II, problemas articulares (inclusive na coluna
vertebral) e alguns tipos de câncer.
Podemos
avaliar o grau de obesidade através do peso e da quantidade de gordura
corporal, porém a classificação da quantidade de gordura corporal relativa
(percentual de gordura) é a maneira mais representativa de determinar a
composição corporal e aquela que apresenta maior relação com os diferentes fatores
de riscos à saúde.
Os
valores de percentual de gordura adequados variam com o sexo e com a idade,
para indivíduos entre 40 e 50 anos do sexo masculino o percentual de gordura
considerado normal é de aproximadamente 18%. A determinação da composição
corporal é conseguida através de uma avaliação com um professor de Educação
Física ou um Nutricionista.
Maiores
quantidades de gordura corporal podem ser associadas a um maior risco de DD,
seja pelo fato de a gordura ser um tecido corporal com grande capacidade de acúmulo
de gás inerte ou por elevados níveis do gordura corporal representar uma menor
resistência cardiorrespiratória.
Dessa
forma podemos concluir que mergulhadores que estejam dentro dos limites
recomendados de gordura para sua faixa etária podem apresentar menor risco de
DD, além de todos os outros benefícios ligados a um bom nível de aptidão
física.
Aptidão Muscular
Temos
a força e resistência muscular, assim como a flexibilidade como componentes
integrantes da aptidão muscular.
Força e Resistência Muscular
Força
muscular pode ser definida como a capacidade de um grupo muscular específico em
desenvolver força contrátil máxima contra determinada resistência, por sua vez
resistência muscular é caracterizada pela capacidade de um grupo muscular em
gerar força submáxima por períodos prolongados. Tanto a resistência quanto a
força muscular podem ser divididas em estática e dinâmica, assim como podem ser
classificas em outros subgrupos, isto faz com a avaliação e classificação de
força e resistência muscular apresente características específicas criando um
número significativo de testes e classificações.
Possuir
níveis adequados de força e resistência muscular permite que as pessoas
pratiquem atividades de lazer fisicamente ativas, como também atividades
diárias com mais facilidade e dessa forma mantenham sua independência funcional
em todo transcorrer da vida. Como alterações específicas geradas por um
programa de treinamento de força e resistência muscular, podemos citar aumentos
da massa mineral óssea, redução da possibilidade de quedas em idosos,
diminuição da hipertensão arterial, redução da gordura corporal e prevenção de
patologias lombares.
Como
possuir maiores níveis de força e resistência muscular é positivo para saúde e
a avaliação destes níveis é extremamente específica, é consenso na comunidade
científica que as alterações relacionadas às modificações ósseas, a hipertensão
arterial, ao aumento da massa corporal magra e a diminuição da gordura corporal
absoluta e percentual e a prevenção de problemas na coluna vertebral podem ser
alcançadas com a participação regular em programas de treinamento de força e
resistência. Não havendo a obrigatoriedade de classificação quantitativa da
força e da resistência muscular.
O
desenvolvimento da força e resistência muscular reflete diretamente sobre as
questões ligadas a segurança da coluna vertebral (especificamente a coluna
lombar) durante o manuseio e transporte do equipamento de mergulho, já que em
diversas situações os mergulhadores necessitam lidar com a movimentação e
elevação de objetos relativamente pesados. Além da questão mecânica ligada a
coluna vertebral, temos também os benefícios indiretos associados aos menores
riscos de DD e a maior capacidade de administração de problemas provenientes do
aumento da força e resistência muscular devido às alterações na composição
corporal e na capacidade cardiorrespiratória do mergulhador.
Flexibilidade
Mesmo
negligenciada por uma grande parte das pessoas a flexibilidade é um importante
componente da aptidão física e saúde, já que possui relação direta com a
independência funcional, com a capacidade de realização de tarefas diárias e
com as lesões musculares.
A
utilização de exercícios de alongamento anteriormente a realização de
performances esportivas não se mostrou eficiente para a redução de lesões ou
aumentos do desempenho, porém exercícios regulares de longo prazo parecem ser
capazes de melhorar o desempenho e diminuir os riscos de lesão muscular e dores
na coluna lombar.
Sendo
assim os mergulhadores devem incluir em sua rotina de exercícios de
flexibilidade não somente pelos benefícios para a saúde como também pelas
vantagens relacionadas ao mergulho SCUBA, que incluem menor possibilidade
câimbras, aumento da segurança durante transporte e movimentação de
equipamentos pesados e maior capacidade de manuseio (abrir ou fechar) das
torneiras em situações de emergência, principalmente nas atividades de mergulho
técnico.
Na próxima postagem sobre o tema escreverei sobre os benefícios da aptidão
física para o mergulho.
Abraços e até mais...Carlinhos/Careca
carlinhos@planetamergulho.com.br
carlinhos@planetamergulho.com.br

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