Equipamentos de Mergulho - Introdução
No inicio do meu treinamento em mergulho em cavernas
e de mergulho técnico uma das coisas que mais chamou minha atenção foi a
configuração de equipamentos, chamada de “Configuração Hogarthiana”. Podemos
dizer que essa forma de utilizar o equipamento de mergulho começou no ano é
de 1979, na Flórida (USA), quando o americano Greg Flanagan estava
fazendo o curso de mergulho em caverna com um instrutor recém formado pela
NSS-CDS (Sociedade Nacional de Espeliologia – Secção de Mergulho em Caverna)
chamado Sheck Exley. Durante o
treinamento, Greg utiliza uma dupla de cilindros de aço que é presa diretamente
ao seu corpo por algumas tiras de nylon e para controle da flutuabilidade
utiliza uma célula de ar que vai colocada no seu abdômen, que são conhecidas
como belly bags. A utilização dos cilindros de aço com a belly bag faz com que
constantemente Greg tenha que ficar se equilibrando para não girar no seu
próprio eixo longitudinal e ficar como uma tartaruga de pernas para cima. Isso
faz Greg achar os mergulhos de treinamento desconfortáveis.
Bag Belly
Greg e
outros mergulhadores resolvem então, experimentar o recém lançado colete do
tipo jacket (CTJ) da Scubapro (Scubapro Stabilizing Jackets), mas o fato de os
cilindros ficarem presos em um back pack de plástico injetado fazia com que eles
fiquem muito altos em relação ao tronco, tornando-os desconfortáveis também.
Ele também tornava a manutenção da posição horizontal, que é fundamental no
mergulho em cavernas, bastante difícil e isso ocorria devido a sua
característica de inflar nas costas e no abdômen. Além disso, este colete não
possibilitava fixar equipamentos importantes como carretilhas e lanternas sem
gerar pontos de enrosco.
Colete Scubapro 1971
Ele então
resolve colocar a célula de ar entre os cilindros e suas costas, mas como fazer
para fixar este conjunto ao seu corpo? Ele acha a solução criando o primeiro
back plate da história do mergulho,
que quando colocado junto com a célula de ar e o arreio formam o primeiro
colete do tipo asa (CTA) a ser utilizado. Este equipamento, juntamente com a
mangueira longa, representa de forma mais característica os mergulhadores em
cavernas, mergulhadores técnicos ou mergulhadores do estilo Hogarthiano.
A
utilização da mangueira longa iniciou com Irby Scheck Exley Jr, filho de Irby
Scheck Exley e Virginia Elizabeth Wilkes. Um menino que começou a mergulhar nas
cavernas da Flórida aos 16 anos de idade e após os 29 anos que se dedicou a
esta atividade tornou-se um dos maiores exploradores que a comunidade
internacional de mergulho em caverna já conheceu. Scheck Exley era instrutor de
mergulho e professor de matemática, escreveu um livro chamado de Basic Cave Diving: A Blueprint for Survival
que pode ser considerado o ponto de partida para utilização atual de técnicas,
equipamentos e procedimentos de segurança, tanto no mergulho em cavernas e
técnico como também no mergulho recreacional.
Exley
utilizava seu 2° estágio do regulador com uma mangueira de 2,1 metros, como
companheiro de mergulho, Exley tinha um jardineiro chamado William Hogarthian
Main, eles adotaram o uso desta mangueira longa por considerarem que dessa
forma a solução de uma emergência de falta de ar seria resolvida de forma muito
eficiente. Principalmente se o mergulhador estivesse respirando no 2° estágio
com a mangueira longa e o doasse para o mergulhador sem ar ao invés de
localizar e passar seus “octopus”, já que isto tornaria o tempo de resposta
muito menor.
William Hogarthian Main
William
Main estudou a configuração de equipamentos de mergulhos em caverna para que
cada um dos seus componentes fosse o mais seguro e eficiente possível e reduziu
a quantidade de equipamentos que deveria ser levada em cada mergulho, criando
uma configuração dinâmica que poderia ser adaptada tanto para um mergulho em
cavernas quanto para um mergulho oceânico.
É claro que
somente a utilização de um CTA de uma mangueira longa não pode garantir uma
configuração de equipamentos adequada; é necessário que outros aspectos sejam
considerados. Uma boa configuração de equipamentos deve permitir que os itens
necessários para todos os mergulhos sejam levados e ao mesmo tempo permitir que
itens específicos sejam acrescentados sem comprometer a hidrodinâmica e a
funcionalidade. Mergulhos feitos com a mesma configuração permitem que a eficiência
geral de uma equipe de mergulho seja aumentada, quando são utilizadas
configurações diferentes algumas limitações podem ocorrer:
Dificuldades nas verificações de segurança devido aos diferentes
procedimentos exigidos por cada tipo de configuração;
- A identificação de problemas antes, durante e após o mergulho fica mais difícil devido à menor familiaridade gerada com diferentes tipos de equipamento;
- O tempo de resposta para problemas fica diminuído, diminuindo a eficiência de uma equipe de mergulho diante situações de emergência;
- Para uma mesma equipe de mergulho o número de peças de reposição e ferramentas necessárias aumenta significativamente.
Determinados critérios básicos devem ser observados na montagem da
configuração de equipamentos segura e eficiente, são eles:
- Integração – Uma configuração efetiva é um sistema onde os diferentes componentes são organizados com uma visão global e cada item tem um motivo específico;
- Simplicidade – A configuração deve funcionar de maneira simples e intuitiva. Este ponto é ainda mais relevante diante situações de emergência, onde reduz o tempo de resposta e o estresse;
- Minimalismo – Para reduzir os pontos de falhas o sistema deve ser composto somente dos componentes que realmente apresentem função no mergulho em questão;
- Ergonomia – Evitar dificuldades motoras e estresse muscular é motivo pelo qual todas as peças de uma configuração equilibrada devem permitir uma boa interação anatômica e funcional entre o mergulhador e o equipamento;
- Hidrodinâmica – É fundamental que o sistema de equipamentos seja compacto e apresente pequena resistência aos movimentos do mergulhador e nenhuma possibilidade de enrosco ou aprisionamento. É também importante que os espaços sejam aproveitados para evitar arrasto sem diminuir o desempenho;
- Compatibilidade – A configuração deve ser aplicável em diferentes ambientes de mergulho com o menor número de modificações possíveis. O sistema DIR de configuração de equipamentos, usada em mergulhos em cavernas, é basicamente a mesma usada em mergulhos técnicos profundos ou em mergulho recreativo. As modificações limitam-se a colocação ou retirada de peças do equipamento para um ambiente específico, porém a mecânica de utilização dos equipamentos é a mesma.
Abraços e até mais...Carlinhos/Careca
carlinhos@planetamergulho.com.br



ResponderExcluirMuito interessante e também fascinante conhecer a história!
Um outro critério talvez fosse o de treinamento da equipe com a configuração dos equipamentos.
Imagine um mergulho de uma dupla, um com um tipo de equipamento e o outro com uma configuração que seu dupla nunca viu antes. O nível de estresse dos dois mergulhadores poderia ser grande.
Quanto você acha que isto impactaria em um mergulho?
Parabéns por mais um excelente post