CONFIGURAÇÃO BACKMOUNT

INTRODUÇÃO

Na postagem anterior sobre o tema EQUIPAMENTOS DE MERGULHO tratei do conceito Hogarthiano de configuração, hoje escrevo sobre como acredito deve ser a configuração backmount [montagem dorsal] dentro desse conceito.

Essa postagem terá três partes, na primeira descrevei como deve ser o colete equilibrador, na segunda como deve ser configurado o regulador e na terceira como são utilizados outros equipamentos.

PARTE 1

O colete utilizado é o Colete Tipo Asa [CTA], ele é um equipamento modular formado  basicamente pelo back plate, arreio, asa de Flutuação e adaptador. A seguir veremos os detalhes de seus componentes.

Componentes dos Coletes Tipo Asa
               
Back Plate

Esta é uma peça rígida que pode ser fabricada em aço inox ou alumínio e possui um formato adequado para que fique confortável quando em contado com as costas do mergulhador. A escolha do tipo de material deve levar em consideração as questões de flutuabilidade e peso do equipamento a ser transportado.


               
Arreio

É uma tira de nylon com 50 milímetros que passa por orifícios do back plate fornecendo uma forma de fixação do mesmo ao corpo de mergulhador envolvendo os ombros e a cintura do mergulhador. A fixação do arreio é feita através de uma fivela que na altura do umbigo do mergulhador faz a conexão entre as duas extremidades do mesmo. O arreio pode ser uma peça única sem qualquer tipo de conexão, além da fivela da cintura, ou pode em um dos lados na altura das primeiras costelas, possuir uma presilha de engate rápido, que teoricamente facilita a colocação ou retirada.



Soft Harness
               
Esta é uma alternativa para o conjunto formado pelo back plate e o arreio, que é fabricada com material resistente e flexível, mas é capaz de cumprir as mesmas funções do conjunto back plate e arreio.  A diferença básica entre o back plate e o soft harness está no fato que o primeiro apresenta flutuabilidade negativa, possibilitando a utilização de uma quantidade significativamente menor de lastro ou até mesmo [em algumas circunstâncias] de nenhum lastro. Ao mesmo tempo em que flutuabilidade negativa é uma vantagem pela redução da quantidade de lastro, pode ser uma desvantagem durante o transporte do equipamento devido ao seu maior peso.


               
Tira entre Pernas
               
É uma tira única que liga a porção inferior do back plate ou soft harness a tira da cintura do arreio ou soft harness junto à cicatriz umbilical do mergulhador. Pode ter uma largura igual ou inferior a do arreio. Sempre que possível deve ser utilizada, pois prove uma maior estabilidade do CTA e do cilindro junto ao corpo do mergulhador trazendo facilidades para o posicionamento horizontal e estabilidade durante o mergulho.
               
Anéis em Forma de D ou “D’Rings”
               
Os D’rings apresentam a função de fixação de uma série de equipamentos. Devem ser utilizados no mínimo cinco D’rings: um em cada ombro, um do lado esquerdo da cintura, um na parte posterior e outro na parte anterior da tira entre pernas. É fundamental que sejam fabricados com materiais resistentes à corrosão, como o aço inox. O D’ring da cintura deve ser colocado no centro do corpo do ponto de vista lateral.
               
Determinada linha de mergulho acredita não haver necessidade de um número maior de D’rings, alegando que todos os equipamentos fundamentais podem ser fixados em cinco deles, sem a necessidade de uma complexidade desnecessária na configuração dos equipamentos.
               
Asa de Flutuação
               
A asa de flutuação é uma célula de ar fabricada em plástico ou outro material semelhante que na maioria das vezes é revestida por um tecido de alta resistência com o objetivo de proteção abrasiva. As asas são apresentadas em formatos variados como o formato em “O”, em “U” invertido ou o formato delta, assim como com capacidades de flutuação distintas. Normalmente a capacidade de flutuação das asas varia de 30 a 60 libras [13,6 a 27,2 kg]. As asas de 30 libras são as mais indicadas para mergulhos onde é utilizado um cilindro de alumínio de 11 litros ou um cilindro de aço de até 18 litros. Para mergulhos onde são utilizados dois ou mais cilindros, independente do material e do volume, a asa utilizada deve uma capacidade mínima de 50 libras.



               
Alguns fabricantes, nas asas de maior capacidade, colocam tiras elásticas para que quando estas estiverem vazias ou pouco cheias apresentem um perfil reduzido diminuindo assim o arrasto e favorecendo a hidrodinâmica do CTA. Contudo alguns mergulhadores acreditam que isso possa trazer prejuízos que não compensam este menor arrasto, podemos citar:
  • A inflagem pode se tornar difícil devido à resistência gerada pelas cordas elásticas e a pressão hidrostática. Esta característica prejudica a resposta rápida de inflagem, quando necessário um controle imediato da flutuabilidade;
  • A desinflagem por sua vez é facilitada pelas cordas elásticas deixando prejudicado o ajuste fino da flutuabilidade;
  • São formadas bolsas de ar em determinados locais da asa, distribuindo o ar/gás de forma desigual e prejudicando a manutenção da posição horizontal;
  • Em caso de falha do sistema de inflagem automático, a inflagem oral será mais difícil devido à maior resistência gerada pelos elásticos;
  • Em alguns ambientes de mergulho, como naufrágios, o elástico pode se tornar um ponto de enrosco.

É importante ressaltar que os mergulhadores e instrutores não são unânimes em relação à veracidade dos pontos referidos anteriormente.
               
Traquéia e Inflador de Baixa Pressão
               
A traquéia é uma mangueira corrugada em que uma das extremidades se fixa a asa de flutuação através de um joelho com rosca e porca e na outra se fixa ao inflador de baixa pressão. Este último possui uma conexão para uma mangueira de baixa pressão que vem do regulador, fazendo com que este conjunto possibilite a entrada e saída de ar/gás da célula de gás.
               
É importante     que o comprimento da traquéia permita uma colocação e retirada facilitada de ar/gás e ao mesmo tempo não permaneça muito afastada do corpo do mergulhador quando este estiver na posição horizontal. Quando utilizando roupa seca é recomendado, não obrigatório, que o comprimento da mangueira permita a inflagem da asa e da roupa ao mesmo tempo utilizando somente a mão esquerda.
               
Válvula de Exaustão/Segurança Inferior
               
É importante que a asa possua uma válvula de exaustão posicionada na sua porção inferior, para que esta seja utilizada para esvaziar o colete quando necessário ou como válvula de segurança em uma situação de enchimento excessivo.

Adapatador
               
É normalmente uma peça com perfil em “U” ou “V” que possui tiras que fixação de cilindro e parafusos que apresenta a função de fixar o back plate ou soft harness e a asa de flutuação ao cilindro de mergulho. Ela pode ser fabricada em aço inox ou alumínio, a escolha do tipo de material de levar em consideração as questões de flutuabilidade e peso do equipamento a ser transportado.


               
Alguns conjuntos de soft harness e asa de flutuação podem permitir a utilização de tiras de fixação de cilindro sem a necessidade de utilização de adaptadores rígidos, novamente esta escolha está relacionada com questões de flutuabilidade e peso do equipamento.
               
Sistema de lastros


Os CTA permitem a utilização de uma menor quantidade de lastro. O lastro necessário pode ser utilizado de diferentes formas, a primeira delas é através do uso de bolsos especiais que podem ser colocados na tira da cintura do arreio. A segunda é a colocação de lastro junto às tiras do adaptador, também através da colocação de pequenos bolsos. Como terceira possibilidade temos alguns adaptadores, que tendo o tamanho adequado, permitem a colocação de algumas pedras de lastro no seu interior. Já como quarta alternativa temos a utilização de um suspensório de lastros.



Vantagens dos CTA

As vantagens do CTA sobre os coletes tipo jacket [CTJ] e os coletes de inflagem dorsal [CID] estão relacionadas com o fato de que célula de ar fica posicionada entre as costas do mergulhador e os cilindros enquanto nos CTJ ela envolve todo o tronco do mergulhador. Nos CTJ além da célula de ar ao redor do corpo do mergulhador também são encontrados grandes bolsos para acessórios, já nos CID a célula de ar é posicionada como nos coletes asa, mas eles apresentam bolsos como os CTJ.
               
Se observarmos as imagens anteriores poderemos entender melhor as vantagens do CTA que estão relacionadas com menor área ocupada ao redor do corpo do mergulhador.

Colete de Inflagem Dorsal

Colete Tipo Asa

Colete Tipo Jacket

               
Vejamos agora as vantagens do CTA:
  • A área frontal e do peito do mergulhador permanecem limpas. Isto significa que o mergulhador fica com uma melhor hidrodinâmica e um melhor acesso ao 2° estágio reserva, a mangueira do colete e ao botão de inflar da roupa seca. A mangueira longa (do 2° estágio principal) é posicionada por cima de todos os equipamentos.
  • Como a célula de ar fica posicionada nas costas do mergulhador, quando esta está cheia não dificulta a respiração do mergulhador, pois não ocorre compressão abdominal.
  • O centro de flutuação é próximo ao centro de gravidade do mergulhador que facilita o equilíbrio evitando rotações no eixo longitudinal do corpo e possibilitando uma maior capacidade de manobras durante o mergulho.
  • Pelo posicionamento do centro de flutuação facilita a manutenção da posição horizontal [trim adequado].
  • Os CTA apresentam uma característica modular o que possibilita a adaptação para diferentes tipos de mergulho, como mergulhos com cilindros simples, com cilindros duplos e mergulhos de sidemount.
  • Utilização de uma menor quantidade do lastro devido ao seu menor volume.

PARTE 2

Regulador

Como já foi referido anteriormente o CTA com conhecemos hoje faz parte de um estilo de configuração de equipamentos que apresenta dois princípios fundamentais:
  1. Equipamentos seguros e eficientes e somente utilizados quando necessário.
  2. A peça mais importante do equipamento é o mergulhador, nenhum equipamento substitui uma habilidade bem treinada.

Considerando estes princípios o regulador com configuração Hogarthiana apresenta características bem peculiares.



A característica que primeiro chama a atenção deste regulador é a utilização do 2° estágio principal em uma mangueira com 2,1 metros. Primeiramente pensada para emergência de doação de ar em ambientes de caverna ou naufrágio onde em alguns cenários não é possível e passagem de dois mergulhadores lado a lado, e que posteriormente mostrou-se vantajosa também em ambientes de mergulho recreacional, pois facilitam os procedimentos em uma emergência de falta de ar. No caso de um compartilhamento de ar o regulador que é doado ao mergulhador sem gás é o da mangueira longa que é o mesmo em que o mergulhador doador está respirando, nesta situação o mergulhador doador passa a respirar no 2° estágio reserva que está fixo ao seu pescoço por uma gargantilha.
               
Algumas pessoas podem pensar que doar o 2° estágio que está sendo utilizado pode ser complicado, ainda mais estando este em uma mangueira de 2,1 metros em volta do pescoço e ancorada na cintura do mergulhador.



Porém é importante lembrar que nenhum equipamento substitui uma habilidade, sendo assim, com o treinamento adequado a utilização da mangueira longa como 2° estágio principal e sua doação em uma situação de emergência tornam-se bastante simples.

Outro aspecto importante da utilização do regulador Hogarthiano com o CTA é que a área frontal do tronco do mergulhador permanece limpa, assim como, não há aumento do volume do conjunto colete/regulador.
               
Ainda pensando na diminuição de volume e arrasto o manômetro é utilizado sozinho e não em console de instrumentos, conhecido como “Boot”. O manômetro é colocado no D’ring da cintura através do uso de um mosquetão o que facilita sua retirada para leitura durante o mergulho.



PARTE 3

CTA e Outros Equipamentos

Os coletes do tipo asa permitem, de forma segura e eficiente, a utilização de outros equipamentos que são importantes durante as atividades subaquáticas. Alguns deles devem ser transportados em todos os mergulhos e outros são acrescidos em atividades específicas.
               
Dentre os equipamentos que devem ser levados em todos os mergulhos temos os sinalizadores de superfície [decomarkers] e carretilhas [spool], que podem ser transportados no D’ring traseiro da tira entre pernas, dentro de bolsos específicos usados no lado direito da tira da cintura ou ainda dentro de bolsos colocados na roupa de mergulho, na porção lateral da coxa.




Para mergulhos noturnos devemos acrescentar a nossa configuração de equipamentos as lanternas. O ideal é uma lanterna primária de alta potência, como as lanternas de canister [HID ou LED] e pelo menos uma lanterna reserva.


               
O CTA oferece a possibilidade de fixação destes equipamentos de forma compacta e que facilita a utilização quando necessário. A bateria da lanterna primária [canister] normalmente é fixa na tira da cintura do lado esquerdo, enquanto a lanterna reserva vai fixa na tira dos ombros, entre o braço e as costelas.



               
A colocação das lanternas e de outros equipamentos, quando necessário, é feita levando em consideração os princípios de dinâmica, simplicidade e eficiência da configuração Hogarthiana.

Considerações Finais

Um ponto importante a ser lembrado é que mesmo que as configurações mostradas nessa postagem sejam utilizadas por um número representativo de instrutores e mergulhadores, ela não representa a única opção para utilização da configuração backmount. Mesmo assim, em minha opinião ela representa a melhor opção para backmount.


Mesmo aqueles mergulhadores que não participarão de mergulhos técnicos podem tirar bons proveitos da utilização dos CTA nos mergulhos recreacionais, realizando mergulhos mais confortáveis, com menor consumo de ar/gás e estarão mais preparados para situações de emergências, ainda mais, se não adotarem somente um tipo de colete equilibrador, mas também uma filosofia de mergulho e de configuração de equipamentos.


PARA FINALIZAR É IMPORTANTE LEMBRAR QUE O MAIS IMPORTANTE NÃO SÃO OS EQUIPAMENTOS QUE O MERGULHADOR UTILIZA E SIM O DOMÍNIO DAS HABILIDADES DE MERGULHO, A ATITUDE E O TREINAMENTO QUE O MERGULHADOR POSSUI.

Carlinhos
carlinhos@planetamergulho.com.br

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