Riscos do Mergulho Profundo Extremo


Essa postagem é uma tradução adaptada de um texto do blog sobre mergulho técnico Doppler. O original pode ser lido aqui. As ilustrações são minhas, não culpem o autor.

Um recente acontecimento trágico - a morte de Guy Garman ao tentar um mergulho de 365 metros com equipamento scuba  direcionaram os holofotes da comunidade de mergulho técnico para uma série de questões específicas dos mergulhos profundos extremos. Esse acidente fatal gerou uma questão importante: o que deu errado?


Em seu blog Andy Davis escreveu uma postagem que trata dos  fatores psicológicos que podem estar relacionados com esse mergulho fatal. Sem querer comentar sobre os detalhes do episódio de Garman, escrevo sobre alguns outros potenciais riscos que esperam por qualquer mergulhador que tente recorde futuros.

Vamos ignorar os caprichos de descompressão que já são enorme desafio em si mesmo. Olharemos apenas para os desafios que um mergulhador teria de enfrentar em mergulho de extrema profundidade.

Em primeiro lugar, um importante aspecto relacionado ao uso de TRIMIX em profundidades com três dígitos. Pode-se dizer que a Síndrome Nervosa de Altas Pressões (HPNS) é para mergulho profundo com hélio que o nitrogênio é para o profundo mergulho no ar. Mas, em vez de os sintomas e sinais de narcose (como depressão da função cerebral e suas consequências), a HPNS se manifesta em mioclonias (breves contrações involuntárias e incontroláveis de um músculo ou grupo de músculos), tonturas, náuseas e vômitos e pode velar a morte. A HPNS parece ser causada por uma elevação da função cerebral, em termos leigos podemos dizer que resultados de HPNS são um “curto circuito” do sistema nervoso do mergulhador.

A profundidade em que a HPNS se desenvolve e a gravidade dos seus sintomas e sinais está mais intimamente relacionada com a taxa de compressão (velocidade de descida) do que com a profundidade ou a pressão parcial de hélio. Então, quanto mais rápido você desse, maior potencial de surgimento de sintomas ocorre em profundidades “menores”. Isso faz com que dependendo das proporções da mistura a HPNS possa  se tornar um fator de risco em mergulhos "rasos" em profundidades na casa dos 180 metros.


Mergulhadores comerciais, militares e científicos aprenderam como mitigar seus riscos. Em muitos casos, eles levam várias horas para descer, o que diminui os efeitos de HPNS. Mergulhadores que se aventuram na tentativa de quebrar recordes de profundidade potencialmente geram um grau de risco por atingirem “rapidamente” a profundidade alvo. Não importa qual é sua experiência, dieta ou exercício essas ações não vão mudar a fisiologia humana relacionada com essa questão. Pensar que você pode ignorar esse fato é como se aventurar no espaço exterior vestido com uma fantasia do filme Star Wars e esperar um bom resultado.


Obter a mistura certa também é extremamente problemático. Fazer misturas por parcial pressão é uma ciência inexata e na verdade, essa técnica como é praticada pela maioria dos mergulhadores e lojas de mergulho  está longe da “ciência da precisão”. Eu faço isso, você provavelmente faz e meus amigos também. Com procedimentos controlados e prática é uma medida viável para a maioria dos mergulhos técnicos e desportivos. No entanto, para mergulhos profundos extremos a metodologia padrão usado por lojas de mergulho e a grande maioria dos instrutores técnicos oferece um grau inaceitável de riscos. Por conseguinte, a margem de erro fica muito fora da curva tolerável de risco.
Essencialmente, quando a fração de oxigênio de uma mistura é tão baixa como ele deve ser para o mergulho extremamente profundo, as metodologias de calibração e os equipamentos padrão utilizados pelos mergulhadores de forma geral são imprecisos e geram riscos elevadíssimos, que beiram a negligência e a suicídio. As fronteiras que separam os termos respirável, hipóxico e hiperóxico são simplesmente muito tênues em mergulhos profundos extremos para qualquer um que improvisar.


Como se isso não fosse razão suficiente, há o problema da contaminação do gás por monóxido de carbono, compostos orgânicos voláteis, vapor de óleo e outros. No mergulho recreativo e em muitas aplicações de mergulho técnico, vestígios desses contaminantes podem não matar um mergulhador. No entanto, em profundidades onde a pressão ambiente se aproxima e/ou supera 20 bares, até mesmo um gás contendo algumas partes por milhão de um contaminante pode ser tóxico. Vários fabricantes têm excelente equipamento para detectar estes tipos de contaminantes, mas este equipamento tem um custo proibitivo para operações de mergulho com foco em mergulhos recreativos e técnicos.

Depois, há o volume de gás. O equipamento scuba aberto é a melhor tecnologia para uma série situações, mas o mergulho de profundidade extrema não é o caso. Ele simplesmente exige muitos tanques, muitas opções de regulador e muitos pontos de falha.


Por exemplo, vamos considerar um mergulhador que consome 14 litros de gás por minuto na superfície. Ele iria consumir pelo menos 450 litros por minuto a uma profundidade de 300 metros. Isso é se ele não estiver estressado. Ele também teria que usar gás para inflar seu colete equilibrador que seria necessário suportar vários tanques. Um desafio em si.

Junte isso com o fato preocupante de que a pressão a essa profundidade é de 31 ATA, por isso mesmo os reguladores configurados especificamente para o mergulho de profundidade, estariam “lutando” para fornecer gás em uma situação onde a densidade seria 30 vezes maior do que na superfície. Mesmo uma mistura com bastante hélio exigiria do mergulhador um grande trabalho respiratório. E isso aumenta o acumulo de dióxido de carbono, o que resulta numa cascata de eventos que incluem aumento da taxa de respiração e  do risco de narcose.

O estresse térmico é outro fator importante mesmo em profundidades moderadas. Em águas temperadas em locais tropicais também. A diferença entre a temperatura ambiente e da superfície da água, assim como a temperatura da profundidade alvo pode ser 20 graus Celsius ou mais, dependendo da corrente e época do ano. Esse fator combinado com os efeitos de pressão sobre neoprene torna evidente que nenhuma roupa úmida é a proteção térmica adequada para essa situação.


Bem, eu tenho certeza que estes e outros fatores, tais como edema pulmonar por imersão e contra-difusão isobárica foram considerados por Guy Garman e sua equipe de especialistas, mas para o resto de nós, eles parecem sugerir fortemente que o mergulho profundo extremo com equipamento scuba é um negócio arriscado e com uma probabilidade de problemas muito elevada. “Não tentem isso em casa crianças”.


Carlinhos


Nota: Pretendo postar uma tradução da postagem escrita por Andy Davis e outra sobre HPNS. 

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