Voar Após o Mergulho SCUBA
Acredito sem sombras de dúvidas que uma das coisas
mais legais do mergulho, além da exploração subaquática, é poder viajar e conhecer
lugares maravilhosos e outras culturas. E a forma mais rápida e prática de
fazer isso é voando.
Porém para nós mergulhadores é sempre necessário
que organizemos adequadamente o horário de nosso voo após um período de
mergulho. Isso acontece, pois as cabines das aeronaves comerciais são
pressurizadas durante o voo a uma pressão equivalente a 2400 metros de altitude
(0,74 atm), que é uma pressão menor do que aquela a qual estamos submetidos ao
nível do mar (1 atm). Assim quando estamos em um avião é como se tivéssemos
continuado subindo até a superfície ao final de um mergulho. E como durante o
mergulho, dependendo da carga de gases inertes (Nitrogênio e/ou Hélio), esta
exposição à pressão ambiente da cabine pode aumentar os riscos de Doença
Descompressiva (DD).
As primeiras recomendações oficiais sobre o
intervalo de superfície pré-voo (ISPV) foram feitas pela Undersea and
Hyperbaric Medical Society em 1989 [1], elas aparecem no quadro abaixo.
Recomendações para voar
após o mergulho – 1989 UHMS
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Mergulhos dentro do LND
sem sintomas de DD
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Menos de 2 horas de tempo de fundo acumulados em até 48 horas
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12 horas
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Múltiplos dias de mergulhos, mergulhos ilimitados
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24 horas
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Mergulhos descompressivos
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24-48 horas*
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* Esperar no
mínimo 24 horas e se possível 48 horas
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Em 2002 essas recomendações foram alteradas pela
Dive Alert Network [2], que aparecem no quadro abaixo. A principal alteração
ocorreu para múltiplos dias de mergulho, que foram reduzidas para 18 horas e
não mais 24 horas. Estas recomendações são as utilizadas atualmente pelas
principais agências de treinamento de mergulho SCUBA.
Recomendações para voar
após o mergulho – 2002 DAN
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Mergulhos dentro do LND
sem sintomas de DD
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Um mergulho simples
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12 horas
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Múltiplos dias de mergulhos, mergulhos ilimitados
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18 horas
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Mergulhos descompressivos
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Mais 18 horas
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Sobre esse tema em 2014 foi realizado um trabalho
muito interessante [3]. Durante os voos de retorno após uma semana de mergulho,
32 mergulhadores foram examinados através de um exame de ecografia nas
seguintes situações: 1) antes da semana de mergulho; 2) durante a semana de
mergulho; 3) antes do voo de retorno, 24 horas de ISPV e 4) durante o voo de
retorno.
Todos os mergulhadores fizeram perfis similares de
múltiplos mergulhos repetitivos durante a semana de mergulho. Não foram
encontradas bolhas no lado direito do coração em nenhum dos mergulhadores antes
da semana de mergulho ou após 24h após o último mergulho da semana de mergulho.
Um significante aumento do número e grau de bolhas foi observado durante o voo
de retorno. Entretanto, as bolhas foram observadas somente em 6 dos 32
mergulhadores. Este 6 mergulhadores foram os mesmos que desenvolveram bolhas
após cada mergulho.
Os autores concluíram que após observar 24 h de ISPV,
a maioria dos mergulhadores não desenvolveu bolhas durante a exposição à
altitude, entretanto foi intrigante notar que os mesmo sujeitos que
desenvolveram significante quantidade de bolhas após cada mergulho também
mostraram elevado grau de bolhas nas ecografias durante o voo de retorno mesmo
que o ISPV recomendado tenha sido observado. Isto indica uma elevada
suscetibilidade à formação de bolhas em certos indivíduos, que podem necessitar
de ISPV maiores que aqueles atualmente recomendados.
O mesmo grupo de autores, em 2015, realizou um novo
trabalho [5] que teve como objetivo de avaliar a hipótese de que alguns indivíduos
possam apresentar bolhas na corrente sanguínea durante o voo após mergulhos
múltiplos mesmo que o ISPV de 24 horas seja observado.
Para isso foram realizadas ecografias
transtorácicas (ETT) em um grupo de 56 mergulhadores scuba saudáveis (39
homens, 17 mulheres) da seguinte forma: 1) antes de voar, sem a realização de
mergulhos; 2) após uma semana de mergulho, antes do voo de retorno e 24h depois
do último mergulho; 3) durante o voo de retorno, 30, 60 e 90 minutos após a
decolagem. As ETT também foram realizadas após cada mergulho durante a semana
de mergulhos múltiplos. Os mergulhadores foram divididos em três grupos de
acordo com a propensão de formação de bolhas: não formadores, formadores
ocasionais e formadores constantes.
Durante os mergulhos, 23 mergulhadores não formaram
bolhas em nenhum mergulho, 17 formaram bolhas ocasionalmente e 16 sujeitos
formaram bolhas após cada mergulho. Bolhas nos voo de retorno foram observadas
em 8 dos 56 mergulhadores (todos do grupo de formadores). Dois dos
mergulhadores que tiveram os mais elevados escores durante os mergulhos
receberam a orientação de não realizar o último mergulho (aumentando seu ISPV
para 36 horas), com isso eles não desenvolveram bolhas durante o voo de
retorno.
Após observar 24 h de ISPV, a maioria dos
mergulhadores não desenvolveu bolhas durante a exposição a altitude, entretanto
é importante ressaltar que os mesmo sujeitos que desenvolveram significante
quantidade de bolhas após cada mergulho também mostraram elevado grau de bolhas
nas ecografias durante o voo de retorno mesmo que o ISPV tenha sido observado. Esses
resultados colaboram com os resultados do trabalho de 2014, indicando que para
alguns mergulhadores apresentam uma maior suscetibilidade a formação de bolhas,
necessitando de ISPV maiores antes da exposição à altitude após mergulhos scuba.
Estes dos trabalhos mostram que existem argumentos
para que os mergulhadores aumentem o ISPV para períodos maiores do que 18 ou 24
horas e também adotarem práticas conservadoras durante os mergulhos para que a
quantidade de bolhas de gases inertes seja diminuída ao máximo tanto após o
mergulho como durante o voo.
Carlinhos/Careca
artecscuba@gmail.com
Referências
[1] Sheffield PJ. 1989. Flying
after Diving. 39th Undersea and Hyperbaric Medical Society Workshop.
[2] Sheffield PJ, Vann RD. 2002. Flying
After Diving Workshop.
[3] Cialoni D, et al. 2014. Flying
after diving: in-flight echocardiography after a scuba diving week.

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