Número 1 e o Mergulho Scuba.

Dentre as brincadeiras que costumo fazer com os mergulhadores, aquela que normalmente gera “discussões acaloradas” é a seguinte: existem dois tipos de mergulhadores, os que fazem número 1 na roupa de mergulho e os que mentem que não fazem! 

A grande maioria diz que isso não é verdade e que não costumam urinar na roupa. Será que a eles estão no segundo grupo?


Eu estou no primeiro grupo! Sim! Eu faço “número 1” na roupa, mas pera aí! 

Antes que vocês me chamem de nojento e relaxado, leiam o texto que segue e vejam por que muitas vezes não consigo evitar!

Basicamente existem dois mecanismos que me levam a fazer o número 1 na roupa, são eles: o aumento da pressão e a manutenção da posição horizontal (trim) durante o mergulho.

Vamos entender um pouco esses dois mecanismos.

Alterações da Circulação e Pressão

Todos os mergulhadores aprendem no curso básico que a pressão aumenta com a profundidade. É possível que você tenha notado como o seu computador de mergulho ou bússola de repente fica solta conforme a profundidade aumenta? Este é o efeito da pressão da água comprimindo o neoprene. 

Da mesma forma, a pressão também comprime os vasos sanguíneos (veias) nos braços e pernas. Elas, em comparação com as artérias têm uma parede relativamente fina, fazendo com que seu diâmetro seja reduzido facilmente (vasoconstrição). Isso faz com que o sangue venoso, sangue que é transportado pelas veias, seja direcionado para o tronco.

Esse aumento do fluxo para região central do corpo resulta em uma maior chegada de sangue ao lado direito do coração (átrio direito), distende as paredes musculares do coração e aumenta a pressão arterial. 

Com a finalidade de controlar o aumento da pressão arterial, um hormônio chamado Peptídeo Natriurético Atrial (PNA) é liberado na corrente sanguínea. O PNA causa o aumento do diâmetro dos vasos sanguíneo (vasodilatação) e o aumento da produção de urina (diurese) para que a pressão arterial seja reduzida. 

Em algum momento quando a quantidade de urina produzida for grande, você acabará fazendo o número 1.

A imersão até o pescoço é capaz de aumentar a quantidade de PNA circulante no sangue em cerca 60% no período entre 1 e 1,5 horas na água. Juntamente com isso o fluxo urinário pode aumentar em 2,5 vezes, fazendo com que seja praticamente certo que se você prolongar sua imersão na água em mais de uma hora irá ter que urinar.

Importante ressaltar que as informações do parágrafo anterior consideram a imersão até o pescoço, isso faz com as veias dos braços e pernas estejam submetidos a uma pressão de cerca de 1,1 ata. 

Agora imagem o corpo do mergulhador aos 20 metros de profundidade, uma pressão equivalente a 3 ata, provavelmente a quantidade de PNA no sangue e o fluxo urinário devem ser ainda maiores. Ou seja, ainda mais chance de fazer número 1, principalmente nos mergulhos que se aproximem ou passem de 60 minutos.

Alterações na Circulação e Posição Corporal

A manutenção da posição horizontal em relação ao fundo (trim) é importante durante o mergulho. 

A troca da posição em pé para a posição deitada também aumenta a chegada de sangue ao átrio direito e gera um consequente aumento do PNA e da produção de urina. 

Assim, além do efeito da vasoconstrição periférica gerado pelo aumento da pressão durante o mergulho, a manutenção do trim adequado também irá contribuir para aumentar as chances de você fazer número 1 na roupa de mergulho.


Considerações Finais

Como vocês podem ver eu tenho “desculpas fisiológicas” para fazer número 1 durante o mergulho e o máximo que vai acontecer é ter que lavar a minha roupa de neoprene ao final de um dia de mergulho, o que eu faria tendo urinado ou não.

Normalmente, como ingiro uma quantidade razoável de água antes e entre os mergulhos (para evitar a desidratação e risco de doença descompressiva) a minha urina fica mais transparente e com um cheiro bem mais fraco. Isso é um alento!

É importante frisar que não estou dizendo que devemos fazer número 1 na roupa, estou somente explicando os “motivos fisiológicos” que nos levam a fazer isso.

Abraços
Carlinhos

Referências Bibliográficas Consultadas

Weidmann P, et al. 1989. Atrial natriuretic peptide in man.

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