Como o chocolate pode deixar seu mergulho mais seguro?
Alguma vez você já imaginou que comer chocolate antes esvaziar o seu colete equilibrador e curtir o ambiente subaquático poderia deixar seu mergulho mais seguro?
Pois é! Isso é possível.
Ingerir cerca de 30 gramas de chocolate 85% cacau pode fazer com que algumas alterações que ocorrem nos seus vasos sanguíneos durante o mergulho SCUBA sejam alteradas e dessa forma tornar seu mergulho mais seguro.
No texto de hoje vou explicar
como isso acontece.
Para iniciar preciso fazer duas
coisas, primeiro descrever como são e como funcionam os vasos sanguíneos e
depois explicar um conceito chamado de disfunção endotelial.
Os vasos sanguíneos, artérias, veias e capilares,
são responsáveis pela distribuição do sangue por todo corpo. Eles são formados
por diferentes camadas, chamadas de túnicas. A parede dos vasos sanguíneos é
dividida em três camadas:
- Túnica adventícia: é a camada mais externa, formada por tecido conjuntivo;
- Túnica média: é a camada intermediária, composta de células musculares lisas e tecido elástico;
- Túnica intima: é a camada interna, composta de células endoteliais, que entra em contato direto com o fluxo sanguíneo.
A porção mais interna dos vasos, chamada de endotélio, é composta por um tipo de células especializadas denominadas de células endoteliais. Elas possuem uma série de diferentes funções, são elas:
- Formar uma superfície lisa que facilite o fluxo de sangue e prevenindo a aderência das células sanguíneas.
- Regular o transporte de substâncias entre o vaso e as células.
- Regular a angiogênese, que é formação de novos vasos sanguíneos.
- Produzir substâncias que regulam coagulação sanguínea.
- Produzir diversos hormônios.
- Participar da resposta imune, modulando a atividade das células de defesa (linfócitos).
- Regular a contração e relaxamento dos vasos (tônus vascular).
Quando um desequilíbrio na produção endotelial de
mediadores que regulam a contração e relaxamento dos vasos, a resposta
imunológica e outras funções estão presentes temos a disfunção endotelial.
Ou seja, as células endoteliais encontradas na porção mais interna dos vasos
sanguíneos não são capazes de cumprir efetivamente suas funções [1].
Esta alteração está presente na arteriosclerose [2,
3, 4], na hipertensão [5, 6, 7], na retinopatia hipertensiva (lesão na retina)
[8], resistência à insulina [1], no diabetes [9, 10, 11, 12]. Além disso, a
disfunção endotelial também está associada com doença inflamatória intestinal
[13] e com artrite [14].
A disfunção endotelial no mergulho foi demonstrada em um estudo de 2005 [15],
neste trabalho 21 mergulhadores saudáveis (homens com idade média de 35 anos)
realizaram um "mergulho seco" em câmara hiperbárica a uma pressão equivalente a 18
metros de profundidade por 80 minutos. Ao final deste período a pressão foi
reduzida até o equivalente a 3 metros a uma velocidade de 9 metros por
minutos, nesta pressão eles permaneceram por 3 minutos e depois foram levados a um pressão equivalente a da superfície.
A função endotelial foi mensurada por uma técnica
chamada de dilatação mediada pelo fluxo (FMD). Essa técnica é baseada no fato
de que os vasos sanguíneos possuem a capacidade de responder aos estímulos
físicos e químicos autorregulando seu tônus, ajustando o fluxo e a distribuição
sanguínea. Muitos vasos sanguíneos respondem ao aumento do fluxo com dilatação,
sendo este fenômeno chamado de FMD e tendo como seu principal mediador o óxido
nítrico (NO) produzido no endotélio [16].
Quando os autores compararam a FMD antes e após o
mergulho eles perceberam uma significativa redução de 9,2% para 5,0%, fazendo
com que eles concluíssem que essa alteração demonstrava disfunção endotelial
gerada por um mergulho simples respirando ar comprimido [15].
Mergulhos mais profundos do que 18 metros e que
utilizam outras misturas respiratórias também geram alterações na função
endotelial. A disfunção endotelial também foi demonstrada quando mergulhadores
passaram por seis mergulhos sucessivos, um em cada dia, usando uma mistura de
He, N2 e O2 (TRIMIX) em profundidades entre 55 e 80
metros [17]. Tanto a função endotelial
como a atividade pró-oxidante e antioxidante no plasma não retornaram aos
valores do dia anterior ao primeiro mergulho, mostrando a possível existência
de efeitos cumulativos [17].
A atividade pró-oxidante e antioxidante é
importante para que seja mantido o equilíbrio entre a produção de espécies
reativas ao oxigênio e sua eliminação ou reparação dos danos por elas causados.
Quando esse equilíbrio, também denominado de equilíbrio redox, não é mantido
ocorre o que é chamado de estresse oxidativo que provoca danos em todos os
componentes celulares, como proteínas, lipídios e DNA. O estresse oxidativo
está associado com diversas doenças, como a aterosclerose, a doença de
Parkinson e a doença de Alzheimer.
Como durante o mergulho ficamos submetidos a um
ambiente hiperbárico onde pressão parcial de oxigênio é aumentada gerando o que
é chamado de hiperoxia. Assim, o mergulho leva a uma condição de estresse
oxidativo gerando adaptações nas enzimas antioxidantes para que os danos celulares
sejam evitados [18].
Tanto a disfunção endotelial quanto o estresse
oxidativo podem ser diminuídos quando os mergulhadores usam substâncias
antioxidantes anteriormente ao mergulho [19, 20], como a Vitamina C e E. Tanto
sua utilização por um período prolongado nas 4 semanas anteriores [20], quanto 2
horas antes do mergulho [19] são capazes de trazer benefícios.
Os antioxidantes presentes no chocolate 85% cacau
são capazes de eliminar espécies reativas ao oxigênio e dessa forma reduzir o
estresse oxidativo e a inibição do NO [21]. E isso pode explicar a redução da
disfunção endotelial gerada com a ingestão prévia de chocolate em mergulhos livres
[22] e SCUBA [23]. A ingestão de 90 gramas de chocolate 85% cacau 90 minutos
antes do mergulho SCUBA [23] e 60 minutos antes de mergulhos livres [22] previne a
disfunção endotelial.
Então, o uso de Vitamina C, Vitamina E e chocolate
85% cacau é capaz de prevenir a disfunção endotelial gerada pelo mergulho SCUBA
e mergulho livre, tornando estas atividades mais seguras.
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Carlinhos
artecscuba@gmail.com
Referências
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resistência à insulina.
http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302006000200016
[2] Kuvin
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[23] Theunissen
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scuba dive. PMID: 25964032




Muito legal o post, Carlinhos, interessante como sempre. Me chamou a atenção, também, porque eu tenho DII. vou investigar mais a respeito e, adicionar chocolate 85% e as vitaminas no café pré mergulho. :D Obrigado pelo post.
ResponderExcluirOi índio velho! Só me diz uma coisa o que é a DII?
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