FATORES DE GRADIENTE - O QUE SÃO?


Objetivo deste texto é ajudar os mergulhadores com conhecimento sobre teoria descompressiva a entender melhor os “Gradient Factors” (GF) e qual o tipo de influência eles têm sobre a descompressão, seja ela calculada por um software descompressivo ou um computador de mergulho que permita a sua manipulação.



Se você está lendo esse texto, é mergulhador e não tem o conhecimento básico sobre teoria descompressiva clique aqui antes de continuar lendo.

O que vou escrever agora o que já disse muitas vezes. Todos os mergulhos são descompressivos e todos os mergulhadores quando sobem realizam um procedimento descompressivo. Por isso, mesmo os mergulhos dentro dos famosos limites não descompressivos (LND) oferecem o risco do surgimento de sintomas de doença descompressiva.

É bastante comum que os mergulhadores escolham um perfil de mergulho conservador a fim de reduzir ao máximo esse risco e façam isso considerando diferentes fatores durante o planejamento de mergulho. Uma das maneiras de fazer isso é escolher modelos descompressivos que comprovadamente possam “evitar” o surgimento de sintomas, seja usando tabelas de mergulho, computadores ou softwares.

Muitos computadores, softwares e tabelas de mergulho usam os algoritmos de Bühlmann para realizar os cálculos de procedimentos descompressivos, algoritmos esses que são baseados nos princípios de J.S. Haldane (1908). Contudo nos últimos anos foram acumuladas evidências de que mesmo os mergulhos dentro dos LND gerados por esses algoritmos podem permitir a formação de bolhas.

Outros modelos descompressivos, chamados de modelos de bolhas, como o VPM e o RGBM consideram que as bolhas se formam durante a subida e que é necessário fazer ajustes no padrão de subida para controlar o crescimento e propagação dessas bolhas. É dado a estes modelos o crédito de que eles predizem melhor o que acontece com o organismo dos mergulhadores.

Mesmo com a formação de bolhas nos mergulhos gerados pelos algoritmos de Bühlmann, eles continuam sendo usados e efetivamente permitindo que muitos mergulhadores realizem seus mergulhos sem o surgimento de doença descompressiva. 

Isso acontece pois com alguns ajustes é possível fazer com que os algoritmos de Bühlmann possam gerar procedimentos descompressivos muito parecidos com aqueles produzidos pelos modelos de bolhas. E como eles, gerarem descompressões que iniciam em profundidades maiores (deep stops).

O corpo humano é formado por uma série de tecidos como sangue, músculos, ossos e o cérebro que apresentam características extremamente complexas em diferentes aspectos fisiológicos. Os algoritmos descompressivos são modelos matemáticos, onde diferentes tecidos-teóricos tentam representar o que acontece com o nosso organismo no que diz respeito a absorção e eliminação de gases inertes. É importante ressaltar que esses tecidos-teóricos são representações matemáticas e não apresentam relação direta com nenhum tecidos corporal real.

O algoritmo de Bühlmann mais usado é o ZH-L16, onde ZH representa a cidade de Zurique, L representa a palavras limites e 16 é o número de tecidos-teóricos existentes no algoritmo. 

Cada uma desses tecidos possui um valor em minutos que representa a velocidade com que ele é capaz de absorver e eliminar gás inerte. O valor em minutos é chamado de meia-vida, em cada período de meia vida o tecido é capaz de eliminar ou absorver 50% de todo gás inerte que ele pode absorver ou eliminar naquele mergulho em questão. 

Os fisiologistas que estudam teoria descompressiva consideram que um tecido precisa de 6 meias-vidas para ficar completamente saturado de gás inerte ou para eliminar completamente esse gás.

Nesse algoritmo cada um dos 16 tecidos apresenta uma pressão interna máxima de gás inerte que ele pode suportar sem que ocorra a formação de bolhas durante a subida. Essa pressão interna é chamada de Valor M, conceito que foi desenvolvido pelo pesquisador da Marinha Americana Robert Workman e em teoria garante que não sendo esse valor excedido o gás inerte absorvido pelo mergulhador durante o mergulho permanecerá em solução.

Os valores M desenvolvidos por Workman foram baseados em mergulhos realizados no mar, já que ele estava envolvido com  pesquisas realizadas pela Marinha Americana. Já Bühlmann, realizou suas pesquisas em mergulhos realizados em água doce e em locais com altitude elevada e por isso seus valores M são mais conservadores do que os de Workmann.

Como os tecidos-teóricos e os valores M são representações matemáticas e não fisiológicas e são usados para estimar a quantidade de gás inerte no organismo dos mergulhadores em diferentes momentos do mergulho, podemos dizer que quando um tecido atinge 100% do seu valor M a probabilidade do surgimento de sintomas de Doença Descompressiva é estatisticamente alta.

Os fatores de gradiente (GF) são a forma pela qual podemos fazer ajustes no algoritmo de Bühlmann conforme realizamos um planejamento de mergulho para que ele atenda ao máximo as nossas necessidades. 

O GF pode variar de 0 a 100 por cento, onde 100% é o valor M e 0% é a pressão ambiente, onde não há possibilidade estatística do surgimento de sintomas. A descompressão ideal está em algum lugar entre esses dois pontos.

Existem dois diferentes fatores de gradiente, o GF low (baixo) e o GF high (alto). O GF low define em que profundidade a descompressão irá iniciar e o GF high define o quão próximo do valor M o tecido-teórico irá terminar o mergulho, o que por sua vez define o tempo de descompressão.


É necessário que um gradiente seja escolhido para iniciarmos a descompressão, esse é o GF low e sua escolha é muito pessoal. O Dr. Neal Pollock da DAN recomenda que esse valor seja de 30%. Essa recomendação é baseada no fato de que este é ponto da subida no qual mais gás é eliminado do que absorvido, de acordo com o algoritmo.

A definição do GF high é uma questão de quão perto queremos chegar do valor M, as recomendações gerais fazem com que esse valor fique entre 90% e 80%, mas o Dr. Pollock recomenda 70%.



É importante ressaltar que uma utilização fixa dos GF pode não ser a mais adequada. Os valores de 30/70 podem ser os mais indicados para um mergulho com trimix a 60 metros, mas eles provavelmente são extremamente conservadores para mergulhos entre 18-30 metros, assim como podem ser inadequados para a realização de mergulhos em profundidades maiores.

É necessário que os mergulhadores experimentem diferentes valores de GF, façam comparações, procurem saber o que outros mergulhadores fazem e o que as agências com a DAN recomendam. E ao mesmo tempo estejam cientes da importância de ter um estilo de vida que seja condizente com a redução do risco de Doença Descompressiva (para saber mais sobre isso clique aqui).


Tudo isso é necessário porque nenhum algoritmo, nenhum computador, nenhuma organização e ninguém pode assegurar que um mergulho será seguro.

Grande abraço,
Carlinhos/Careca

Comentários

  1. Por si só as variáveis ja sao complexas demais para que um determinado algoritmo possa determinar a quantidade de gases absorvidos por diferentes tecidos, acrescenta-se a isso outros fatores externos como hipertensao arterial , diferentes níveis de gordura nos tecidos, idade, série de mergulhos repetitivos etc... Nao existe algoritmo que consiga determinar um padrão 100% seguro.
    Sempre prevalece o bom senso.
    Abraco professor!

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    1. Você tem absoluta razão. Temos que aceitar os riscos e a segura estatística que modelos podem nos dar. Obrigado pela leitura e pela comentário. Grande abraço.

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