MERGULHAR USANDO NITROX REALMENTE É MAIS SEGURO?


Quando mergulhadores usam misturas de ar enriquecido com oxigênio (Nitrox) eles o fazem para aumentar a proporção de oxigênio na mistura respiratória e diminuir a exposição ao nitrogênio [1]. Mesmo que isso faça com eles tenham que se preocupar com os efeitos adversos do oxigênio (intoxicação), garante limites de tempo não-descompressivos maiores.



Se não considerarmos os riscos de intoxicação por oxigênio, e sim o risco de doença descompressiva (DD) será que os mergulhos realizados com nitrox são realmente mais seguros do que aqueles realizados com ar comprimido?

Sabemos que os sintomas de DD são causados pela presença de bolhas gasosas na corrente sanguínea [2], síntomas esses que variam desde coceira até sintomas neurológicos, colapso cardíaco e morte [3]. Dessa forma quando é avaliada, através de ultrassonografia, a quantidade de bolhas existentes na corrente sanguínea é possível estimar o grau de estresse descompressivo e a gravidade dos sintomas, fazendo com que a quantidade de bolhas seja um meio de prever o risco de DD [4].

O que dizem os estudos sobre a quantidade de bolhas geradas por mergulhos com ar comprimido e nitrox?

Um estudo publicado em 2016 [5] fez com que voluntários realizassem um mergulho simulado em câmara hiperbárica respirando ar comprimido, após isso doze indivíduos foram identificados como sendo propensos a  formação de bolhas após o mergulho. Eles então realizaram outros dois mergulhos com perfil idêntico de 28 metros por 55 minutos, um mergulho respirando ar comprimido e outro respirando Nitrox36 (36% de oxigênio e 64% de nitrogênio). A formação de bolhas na artéria pulmonar foi avaliada após os mergulhos.

Os resultados mostraram que o NItrox36 reduziu significativamente quantidade de bolhas em comparação com os mergulhos com ar comprimido. Ocorreram três incidentes de DD, prurido cutâneo (coceira), nos mergulhos com ar comprimido e nenhum nos mergulhos com Nitrox36.

Os autores concluíram que a utilização de misturas de Nitrox reduz acentuadamente as bolhas após o mergulho em voluntários selecionados para suscetibilidade à formação de bolhas na corrente sanguínea. Ao usar perfis de mergulho semelhantes e evitar limites de toxicidade de oxigênio, o Nitrox aumenta a segurança do mergulho em comparação com a utilização de ar comprimido.

Os resultados desse estudo [5] são muito interessantes e mostram a efetividade das misturas de Nitrox para redução das bolhas e consequentemente do risco de DD. Porém os mergulhos não forma reais, não foram realizados em água doce ou salgada. Sabemos que os ambientes reais de mergulho apresentam características completamente distintas de uma câmara hiperbárica e também impõem condições como esforço físico, frio e calor que podem alterar o risco de DD [3]. Por isso seria muito importante que estudos semelhantes fossem realizados em ambientes reais.

Pois foi justamente isso que Brebeck e colaboradores fizeram [6]. O estudo incluiu 108 mergulhadores recreativos avançados (38 mulheres), cada mergulhador realizou dois mergulhos, um respirando ar comprimido e o outro respirando Nitrox28. Os mergulhos tiveram o perfil de 24 metros por 62 minutos e foram realizados no Mar Vermelho. As bolhas foram mensuradas entre 30-45min antes do mergulho e entre 45-60min após o mergulho nas veias jugular, subclávia e femoral.

Apenas 7% dos mergulhadores respirando ar comprimido e 11% dos mergulhadores respirando Nitrox28 não apresentaram bolhas após os mergulhos. A quantidade total de bolhas detectadas foi maior no grupo de mergulhadores respirando ar comprimido do que no grupo de mergulhadores que usaram Nitrox28. Com esses dados os autores concluíram que a mistura de Nitrox ajuda a reduzir as bolhas e que o número de bolhas dependia do gás respirado.

Esses dois estudos [5,6] aliados ao elevado grau de segurança que os mergulhos com Nitrox vêm apresentando desde o inicio de seu uso em grande escala demonstram que realmente a utilização destas misturas aumenta a segurança em relação a DD.

Gostaria de saber a sua opinião sobre esse tema!

Grande abraço, Carlinhos.
artecscuba@gmail.com

REFERÊNCIAS
[1] PADI International. 2005. The Encyclopedia of Recrational Diving. Terceira Edição. ISBN 1-878663-02-X
[2] Mocsári L. 2015. Rebreather Mergulhando Fundo na Técnica. ISBN 978-85-910565-2-1
[3] Vann RD, et al. 2011.  Decompression illness.

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