As características de uma nadadeira realmente fazem diferença?


No mergulho SCUBA temos os chamados equipamentos básicos: a máscara, o snorkel e as nadadeiras.

As nadadeiras, também conhecidas como “pés de pato”, são uma ferramenta que nos proporcionam um aumento da superfície dos nossos pés, permitindo usarmos as musculaturas dos membros inferiores para uma propulsão eficiente durante o mergulho (1).

Todas as nadadeiras, independente do tipo ou estilo, são compostas por uma lâmina chamada de pá, que serve para impulsionar a água e gerar deslocamento. E outra parte denominada de calçadeira, que é o local onde colocamos o pé.

Atualmente a maioria das nadadeiras é composta de dois tipos de materiais, a borracha e o termoplástico, mas também encontramos nadadeiras compostas somente por borracha.

Podemos citar dois grandes grupos de nadadeiras, as abertas e as fechadas. As abertas são ajustáveis e compõem a maioria das nadadeiras existentes no mercado, sendo o modelo preferido pela maior parte dos mergulhadores SCUBA. Por sua vez as nadadeiras fechadas são a opção preferencial dos praticantes do mergulho de superfície (Snorkeling).

Alguns modelos de nadadeiras fechadas apresentam características, como o tamanho da pá, que são preferidas pelos apneístas de competição e caçadores submarinos.

As nadadeiras abertas apresentam tiras flexíveis utilizadas para fixar a nadadeira ao pé do mergulhador. As tiras flexíveis são fixadas à calçadeira com presilhas plásticas de engate rápido muitas das quais possuem um mecanismo de pressão para liberação.

Além das tiras flexíveis com engate rápido, podemos encontrar molas de aço inox que apresentam a vantagem de não necessitarem de ajustes e serem praticamente indestrutíveis. Atualmente existem modelos de molas para quase todas as nadadeiras e também alguns poucos modelos com molas integradas.

A opção de utilizar molas ao invés de tiras flexíveis com engates plásticos rápidos também se dá quando o objetivo é diminuir o número de pontos de falha (rupturas e perda) das nadadeiras. Porém alguns modelos de molas são fixados nas nadadeiras através de engates plásticos, quando isso acontece eliminamos as falhas de ruptura, mas continuamos tendo as falhas ligadas aos engates plásticos.

O que caracteriza a eficiência de uma nadadeira é a propulsão com o menor gasto de energia possível, e consequentemente menos consumo de ar/gás durante um mergulho.

Visando conseguir atingir essa melhor eficiência, as nadadeiras existentes no mergulho são fabricadas possuindo diferentes características. Vejamos agora algumas dessas características.

Calçadeiras com orifícos

Estes orifícios são feitos para impedir que água fique presa no espaço onde está o pé e dessa forma eliminarem um efeito de “pára-quedas". Dessa forma, faria com que o mergulhador se desloque com menor arrasto.


Pá articulada

Permite que a pá mantenha um ângulo ideal durante todo o movimento de pernada, enquanto as nadadeiras sem essa articulação fazem isso apenas durante uma pequena parte do ciclo. As nadadeiras com essa característica nos permitiriam uma propulsão constante e diminuindo a fadiga.
  
Canais ou canaletas

São inserções longitudinais, que podem ser de diferentes comprimentos e larguras, que permitiriam uma deformação controlada da pá nadadeira durante a pernada. Essas características canalizariam uma maior quantidade de água através do seu comprimento, resultando mais deslocamento e menor impulso.


Longarina

Praticamente todos os modelos de nadadeiras abertas possuem longarinas na pá, que são como barras laterais colocadas em ambos os lados que teriam o objetivo de evitar que a pá vibre durante o movimento de pernada. Outra função, creditada as longarinas, é direcionar a água deslocada diretamente para trás e dessa forma propiciar o deslocamento para frente.


Orifícios na pá

Orifícios são utilizados com o fim de reduzir a resistência que poderia gerar desperdício de energia ao invés de propulsão, já que deixam a água passar durante a fase de propulsão ou de recuperação.


Palas Partidas

Os fabricantes alegam que a característica é capaz de diminuir o risco de câimbras, aumentar o tempo de fundo e colocar menos sedimentos em suspensão.

A pala partida gera menor resistência durante a movimentação e direciona praticamente toda a água para trás, o que segundo os projetistas as torna mais eficientes, diminuindo o esforço ao mesmo tempo em que aumenta o deslocamento. Porém, essas nadadeiras não são eficientes em todos os tipos de pernadas.

A seguir, é possível ver a descrição das características e as vantagens dessas características no vídeo de um dos mais famosos fabricantes de equipamentos de mergulho no mundo.



Mas uma pergunta que se faz necessária! Essas características realmente fazem diferença?

Como de hábito, resolvi buscar a resposta para essa pergunta nas evidências!

Dois trabalhos (2, 3) realizados no ano de 2003 nos mostram resultados muito interessantes em relação às nadadeiras e suas características.

Nestes trabalhos foram realizados testes de natação submersa envolvendo 10 homens com média de 38 anos e 8 mulheres com média de 24 anos, todos tinham experiência que variava entre 3 e 15 anos como mergulhadores certificados.

Equipamento padrão de mergulho SCUBA foi utilizado durante teste de natação submersa onde foram avaliados 8 modelos diferentes de nadadeiras.

Os modelos avaliados foram:

Mares Attack (fechada/pala rígida/longa)


Mares Plana Avanti Quattro (aberta/canais/rigidez média)


Scubapro Jet Fin (borracha/orifícios/rigidez média)


Apollo Bio-fin (borracha/pá partida/flexível)



Apollo Bio-fin com fita “tape”


US Divers Blade (palas rígidas)


US Divers Compro (palas rígidas)


Oceanic Ocean Pro (palas rígidas)



Os resultados obtidos podem sumarizados da seguinte forma:
  • Os modelos Mares Attack, Apollo Bio-fin e Scubapro Jet Fin foram considerados os mais econômicos por gerarem o deslocamento com menor gasto energético;
  • As nadadeiras Mares Plana Avantti Quattro, Oceanic Ocean Pro e US Divers Blade foram classificadas como de economia média;
  • A nadadeira de menor economia foi o modelo US Divers Compro.
  • O tipo de material, orifícios, canais, e outras características isoladas não fazem diferença no desempenho das nadadeiras.
  • As mulheres preferem as nadadeiras com maior flexibilidade, que também foram aquelas que apresentaram maior economia.
  • Nadadeiras rígidas e flexíveis tiveram a mesmo desempenho.
  • Não foi provado que nadadeiras mais rígidas geram maior potência e/ou maior velocidade;
  • Nadadeiras rígidas podem limitar que os mergulhadores gerem e mantenham frequências elevadas de pernadas por longos períodos;
  • Nadadeiras flexíveis podem limitar que os mergulhadores atinjam uma frequência máxima de pernadas.

Duas observações importantes sobre os trabalhos realizados devem ser feitas.

Primeiramente devemos considerar que os trabalhos tiveram como objetivo aferir o desempenho de diferentes modelos de nadadeiras através de testes que levaram os mergulhadores a exaustão durante a natação e a partir de então foram tiradas as conclusões.

Caso consideremos que durante a atividade de mergulho SCUBA em nenhum momento, de forma proposital, um mergulhador se colocará em uma situação de exaustão física, devemos então ponderar que as diferenças entre os modelos (e suas características) podem não apresentar o mesmo impacto.

Devemos observar que nos trabalhos citados somente foi utilizada um tipo de pernada durante os testes, dessa forma fica a pergunta, caso fosse avaliado desempenho dos diferentes modelos de nadadeiras através de testes com outros tipos de pernadas, os resultados seriam os mesmos?

Mesmo considerando estas duas observações, parece que independente das características que uma nadadeira possui a forma como essas características determinam a área e a rigidez/flexibilidade da pá é o que parece ser verdadeiramente significativo.

Considerações Finais

Atualmente costumamos ensinar aos mergulhadores diferentes técnicas de propulsão, além da pernada de crawl. Que foi a pernada utilizada pelos pesquisadores dos estudos citados.

A pernada de crawl é caracterizada por um movimento amplo das pernas no plano vertical, movimento que lembra uma tesoura.

As técnicas ensinadas hoje para os mergulhadores incluem movimentos diferentes dos realizados na pernada de crawl, isso leva o mergulhador a fazer movimentos e utilizar musculaturas distintas.

Seria importante a realização de um estudo que tenha o objetivo de avaliar como as características das nadadeiras influenciam a eficiência do deslocamento, considerando diferentes técnicas de propulsão que não a pernada de crawl.

Com as informações que temos até o momento, a escolha da nadadeira deve considerar as características físicas do mergulhador, a aérea e flexibilidade da pá e também o tipo de pernada que será mais utilizado.

Abraço Carlinhos.
artecscuba@gmail.com


Referências

[1]. Zamparo P, Pendergast DR, Termin A, Minetti AE. Economy and efficiency of swimming at the surface with fins of different size and stiffness. Eur J Appl Physiol. 2006;96(4):459–470. doi:10.1007/s00421-005-0075-7

[2]. Pendergast DR, Mollendorf J, Logue C, Samimy S. Evaluation of fins used in underwater swimming. Undersea Hyperb Med. 2003;30(1):57–73.

[3]. Pendergast DR, Mollendorf J, Logue C, Samimy S. Underwater fin swimming in women with reference to fin selection. Undersea Hyperb Med. 2003;30(1):75–85.

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