Reporte de um acidente de mergulho - Caso para estudo.

Na postagem de hoje apresento a tradução de um reporte de acidente publicado na revista Alert Diver do quarto trimestre de 2009.

Toda a analise de acidente pode trazer informações importantes para a prevenção de acidentes futuros.

O mergulhador

O mergulhador tinha na data do incidente 43 anos, ele era um Divemaster experiente com mais de 1.000 mergulhos. Nos 18 anos anteriores ele havia mergulhado quase que semanalmente.

Ele estava com boa saúde e era fisicamente ativo, porém também estava um pouco acima do peso e fumava meio maço de cigarros diariamente. Não usava nenhuma medicação ou tinha algum problema de saúde diagnosticado. 

Nas últimas semanas, ele havia mergulhado dia sim e dia não, geralmente não mais fundo do que 30 metros.

O incidente

O mergulho foi realizado em um naufrágio, onde seu convés estava aos 27 metros.

Durante a descida, o mergulhador perdeu o cinto de lastro. Mesmo assim ele continuou a descida e chegou na areia onde repousava o naufrágio, atingindo 35 metros.

Ele procurou sem sucesso pelo cinto de lastro durante 13 minutos, mas não o encontrou e então começou a subida.

Sem o cinto de lastro, e como ficou a flutuabilidade mais positiva devido à redução quantidade gás em seu cilinsro, ele não conseguiu controlar a subida. E assim, voltou à superfície em menos de um minuto e seu computador mostrou um alarme de violação de subida.

Após a subida, enquanto nadava de volta para embarcação ele sentiu-se fraco e enjoado.

Na embarcação ele necessitou de ajuda para retirar o equipamento, ele se lembra de ter sentido uma leve dor nas costas, tontura e dor de cabeça. Ele se deitou na parte de trás do barco para a viagem de 15 minutos de volta à costa.

Segundo outros mergulhadores, ele parecia estar acordado, com os olhos abertos, mas não conseguia responder aos colegas mergulhadores. No caminho para a costa, o capitão do barco ligou para o servico de emergência médica e uma unidade local estava esperando no cais. A equipe de emergência administrou ao mergulhador oxigênio 100% e também fluidos intravenosos, enquanto se dirigiam ao hospital.

As complicações

No momento em que o mergulhador chegou ao pronto-socorro e foi avaliado pelo médico, ele pode descrever em detalhes o que sentia. Disse não estar sentindo dor ou desconforto, e o médico não encontrou fraqueza, dormência ou formigamento após o exame. O médico então ligou para o serviço da apoio do DAN (Divers Alert Network).

Preocupado com a subida rápida e o período sem resposta após o mergulho, o médico da DAN suspeitou da ocorrência de uma embolia gasosa arterial (EGA) e recomendou que o paciente fosse transferido para a câmara hiperbárica mais próxima.

O tratamento

O mergulhador passou por uma segunda avaliação no centro de medicina hiperbárica.

Quando um exame mais aprofundado foi realizado, o mergulhador não se sentia “como ele mesmo”, ficava tonto e facilmente fatigado quando tentava andar. 

Ele passou por uma sessão de tratamento usando a Tabela de Tratamento Número 6 da Marinha dos EUA, o que representa um período de 4 horas e 45 minutos. Depois disso, ele disse que passou a sentir-se muito melhor.

Ele passou a noite em observação e experimentou um retorno da fadiga no dia seguinte. Ele passou por uma sessão de tratamento usando a Tabela de Tratamento 6 da Marinha dos EUA e continuou a melhorar. 

No dia seguinte ele recebeu uma terceira sessão de tratamento hiperbárico, que foi a última e também mais curta.

Após o terceiro tratamento, ele experimentou a resolução completa dos sintomas. Ele permaneceu sem sintomas e voltou a mergulhar após seis meses.

O diagnóstico

A rápida subida do mergulhador e sua subsequente desorientação, tontura e fadiga incomum apontaram para uma embolia arterial gasosa (AGE).

A discussão

A questão central neste caso foi a falha do mergulhador em seguir os princípios de segurança nos quais todos os mergulhadores são treinados. 

Se ele tivesse seguido seu treinamento e pudesse contar com a ajuda de um companheiro, o acidente poderia ter sido evitado.

Embora não esteja claro o que causou a perda do cinto de lastros, o problema poderia ter sido descoberto e corrigido durante uma boa verificação pré-mergulho ainda na embarcação ou uma checagem "cabeça aos pés" realizada na água, mas ainda na superfície. 

Escolher a opção certa quando um mergulho começa a dar errado também é vital para diminuir o risco e evitar possíveis lesões. 

Depois que o cinto foi perdido, a melhor decisão que esse mergulhador poderia ter feito teria sido cancelar o mergulho e retornar imediatamente à superfície em um ritmo lento e controlado. 

Quando ele decidiu continuar a descida e procurar pelo lastro perdido, ele não considerou o risco que foi gerado pelo aumento do tempo de fundo e absorção de gás inerte.

Quando o mergulhador alcançou o naufrágio e não conseguiu localizar o cinto de pesos, ele se deparou com um problema óbvio de flutuabilidade gerado pela menor quantidade de gás no seu cilindro, que causou um aumento significativo sua flutuabilidade positiva. Neste ponto a opção seria retornar ao cabo de descida/subida e usá-lo para controlar sua subida. 

Não estando próximo a  cabo para se segurar, um mergulhador com flutuabilidade positiva deve esvaziar seu colete equilibrador, abrir os braços e as pernas para aumentar seu volume corporal na tentativa de diminuir a velocidade de subida.

Embora não houvesse oxigênio disponível no barco, o mergulhador recebeu bons cuidados do serviço de emergência local e do departamento médico de emergência.

A ligação para a DAN foi a etapa final para garantir que o mergulhador recebesse os cuidados e o tratamento adequado com um desfecho bem-sucedido.

Sintomas da AGE e Primeiros Socorros

Uma AGE é uma das duas doenças englobadas pelo termo enfermidade descompressiva. A outra é a doença descompressiva. 

Ambas as condições compartilham os mesmos sintomas e requerem o mesmo tratamento de primeiros socorros:

  • Estabelecer e monitorar o suporte básico de vida. Certifique-se de que o mergulhador está respirando; em caso afirmativo, continue certificando-se de que as vias aéreas permaneçam abertas. Caso contrário, comece a administrar o suporte básico de vida.
  • Se o mergulhador estiver respirando, administre oxigênio imediatamente. Mantenha o mergulhador no oxigênio o maior tempo possível.
  • Ligue para o serviço de emergência médico local para obter assistência, sendo possível ligue para a Linha Direta de Emergência de Mergulho 24 Horas da DAN usando o número +1 (919) 684-9111.

Sintomas de AGE

  • Paralisia ou fraqueza
  • Convulsões
  • Tontura
  • Desfoque visual
  • mudança de personalidade
  • Espuma sanguinolenta da boca ou nariz (sinal de possível barotrauma pulmonar)
  • Inconsciência
  • Cessação da respiração
  • Dor no peito
  • Desorientação
Espero que essa postagem tenha sido útil. Tendo sido te peço que a compartilhe.

Caso queira deixar algum comentário ou fazer algum questionamento, fique a vontade.

Grande abraço!
Carlinhos/Careca

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