Equipamentos: do mergulho técnico para o recreacional - Parte 1
Este mesmo tipo de contribuição também acontece no mergulho SCUBA, mais especificamente na relação entre o mergulho técnico e o mergulho recreacional. Atividade que teve sua origem quando o francês Siuer Fréminet concebeu o primeiro escafandro com um reservatório de ar comprimido. Ele o utilizou com sucesso para trabalhos nos portos de Le Havre e Brest de 1772 até 1782. Muita coisa aconteceu até que em 1943, o também francês Frederic Dumas, pudesse experimentar uma forte narcose aos 62 metros profundidade em Les Goudes, um vilarejo litorâneo próximo a Marselha. Ele realizou este mergulho usando um protótipo de regulador criado por Jacques Cousteau e Emile Gagnan, depois o mergulho se desenvolveu e tornou-se uma atividade recreacional praticada por cerca de 6 milhões de pessoas.
Em uma das edições da revista aquaCORPS de 1995, o seu editor Michael Menduno cunhou o termo Mergulho Técnico. Ele usou este termo para descrever as atividades de mergulho SCUBA que extrapolavam os limites do mergulho recreacional, fosse a profundidade, o ambiente, os equipamentos ou as técnicas e os procedimentos. Esta atividade, assim como a Fórmula 1, trouxe inovações para o mergulho SCUBA. Entre elas podemos citar o uso do colete equilibrador tipo asa, que em minha opinião é superior ao colete estilo jacket.
Neste texto, apresento a
primeira parte de uma série de postagens em que tratarei sobre como a adaptação
da configuração de mergulho técnico para o mergulho recreacional pode
contribuir para o aumento da segurança e também da diversão.
Fundamentação da configuração de mergulho técnico.
A configuração de mergulho
técnico mais aceita teve origem do mergulho em caverna, passou por algumas modificações
e se estabeleceu como a configuração padrão que usamos hoje. Ela é amplamente
utilizada porque segue uma filosofia de minimalismo e alinhamento do
equipamento de mergulho para que nada fique pendurado, o arrasto seja
minimizado, os itens desnecessários sejam eliminados e todos os itens do
equipamento fiquem acessíveis.
Esta configuração também é aceita
como a mais adequada porque ela funciona, possibilita variações especificas e
também se adapta a diferentes condições de mergulho. Mesmo aceitando variações,
ela mantém um grau de padronização do manuseio e uso dos equipamentos nas
rotinas mais complexas do mergulho técnico.
A padronização da configuração de
mergulho técnico diminuí de forma significativa as consequências negativas
geradas por um erro de procedimento em situações corriqueiras ou em uma emergência. Pois em uma emergência não há tempo para pensar
em como determinado membro da equipe usa o seu equipamento e então iniciar
o procedimento de solução de problemas mais adequado.
A filosofia que foi base para a
configuração de mergulho em caverna é conhecida com filosofia DIR (Do It Right). Ela
teve a sua origem na comunidade de mergulho em caverna da Florida/USA no final
da década de 1980 e inicio da década de 1990 , onde os fundamentos desta
filosofia foram criados pelos pioneiros na exploração de cavernas Sheck Exley, Bill Main e Parker Turner.
Neste mesmo período o mergulho em caverna estava crescendo em popularidade e isso trouxe a consequência negativa do aumento do número de acidentes e fatalidades. Scheck Exley foi o primeiro a estudar quais seriam as causas destes acidentes, e como resultado desta pesquisa publicou o livro Basic Cave Diving - Blueprint for Survival. Neste livro, entre outras coisas, ele elencou que a falta de treinamento e a configuração inadequada dos equipamentos eram as principais causas de acidente. Foi então, que Exley e Bill Main iniciaram a formulação de uma abordagem minimalista para a configuração de equipamentos, dando origem a Configuração Hogarthiana. Nome que surgiu devido ao fato de Hogarth ser um dos sobrenomes de Bill Main.
Dois dos primeiros mergulhadores de caverna a adotarem a Configuração Hogarthiana foram George Irvine e Jarrod Jablonski, ambos integrantes de um grupo de exploração de cavernas chamado Woodsville Karst Plains Project (WKPP), que aplicaram o conceito Hogarthiano de configuração de equipamentos para criação de uma nova filosofia de mergulho. Esta aplicação dos conceito Hogarthiano foi feita de forma rigorosa, e a frase "Do It Right" ilustra isto. Frase de onde foi retirado o termo DIR para nomear a filosofia de mergulho por eles criada. É importante ressaltar que a filosofia DIR é mais ampla do que somente a configuração de equipamentos, ela engloba muitos outros aspectos do mergulho.
Usando a filosofia DIR, Irvine e Jablonski realizaram dezenas de mergulhos extremamente profundos na caverna de Wakulla Springs na Flórida. E todos estes apresentaram níveis excepcionais de segurança, fato que justifica a utilização desta configuração como ponto de partida para determinarmos qual a configuração adequada para os mergulhos técnicos realizados fora deste ambiente extremo.
Um dos pontos levantados por Exley no seu livro Blueprint for Survival, foi de que o uso de alguns equipamentos desnecessários e inadequados comprometiam as habilidades necessárias para que os mergulhos em cavernas fossem seguros, já que os exploradores que o precederam usavam o conceito de “quanto mais, melhor”. Como exemplo, podemos citar o fato do mergulhador que por falta de habilidade no controle de flutuabilidade, usa capacete durante os mergulhos em caverna e dessa forma se protege contra lesões traumáticas que possam ocorrer. Considerando a filosofia DIR, a solução para que o mergulhador não lesione sua cabeça não está no uso do capacete, e sim no aprimoramento do controle de flutuabilidade.
Quando ao uso do capacete cabe uma observação sobre o tema variações específicas. Em algumas cavernas com restrições severas (teto baixo e/ou passagens bem estreitas), mesmo mergulhadores com um excelente controle de flutuabilidade podem bater sua cabeça no teto da caverna. E por essa razão alguns mergulhadores que são adeptos da filosofia DIR, usam capacetes nesta condição. Isso é bastante comum em cenotes no México, como o Cenote Caterpillar e Xulo.
Considerando a filosofia DIR, você deve levar somente aquilo que você precisa. E para determinar se um equipamento é realmente necessário, você deve avaliar por qual motivo um equipamento está onde está e sempre analisar bem a relação entre um equipamento e uma habilidade. Pois abordar o tema equipamento de mergulho através dos conceitos DIR significa considerar a configuração de forma abrangente, onde uma peça influencia o todo e o todo influencia cada peça.
Por que a padronização dos equipamentos é importante no mergulho técnico?
No mergulho técnico cada um dos
mergulhadores deve ser capaz de iniciar e finalizar um mergulho sozinho, mesmo
que ele sempre mergulhe em uma equipe. Para isso ele
precisa que sua configuração de equipamentos possibilite isso, ou seja, ele
deve possuir redundância de todos os itens essenciais de mergulho. Como por
exemplo, dois reguladores.
Esse conceito faz que em uma
emergência a primeira possibilidade de solução do problema seja o
próprio mergulhador. E, caso ele não seja capaz de resolver a questão, os outros
mergulhadores da equipe proverão uma segunda alternativa. Esse conceito
essencial será comprometido caso os mergulhadores usem configurações de
equipamentos diferentes. Além disso, a utilizam configurações diferentes pode
gerar pelo menos outros três problemas, são eles:
- Dificuldades nas verificações de segurança realizadas nos equipamentos e nos procedimentos antes do mergulho iniciar. Já que procedimentos distintos serão necessários para cada tipo de configuração;
- Diminuição da capacidade de detecção de problemas nos equipamentos dos outros membros da equipe, já que a familiaridade com os equipamentos será pequena ou inexistente;
- Diminuição da eficiência da equipe em situações de emergência, pois configurações distintas irão necessitar de procedimentos diferentes para a solução de um problema. O que por sua vez irá aumentar o tempo de resposta para que a solução seja implementada.
Como a configuração de equipamentos se torna segura e eficiente?
Sete aspectos que tornam a configuração de equipamentos segura e eficiente, são eles: integração, simplicidade, minimalismo, confiabilidade, ergonomia, hidrodinâmica e compatibilidade.
Integração
A configuração precisa ser um
sistema onde seus diferentes componentes são organizados considerando uma visão
de conjunto, onde cada item tem grande influência sobre o todo e cada item
possui uma função específica.
Simplicidade
Todo o sistema de equipamentos
deve funcionar de forma intuitiva, isso é especialmente importante em situações de emergência, onde a simplicidade tem a vital função de reduzir o tempo de
reposta.
Minimalismo
A configuração deve ser composta
somente pelos itens necessários para um determinado mergulho em determinado
ambiente, para que os pontos de falha sejam reduzidos. Redundâncias desnecessárias
devem ser evitadas.
Confiabilidade
As peças do equipamento que compõem
o sistema devem funcionar adequadamente para cumprirem a função pela qual elas
fazem parte do mesmo. A qualidade dos equipamentos utilizados nunca deve ser
desconsiderada em prol da redução de custos.
Ergonomia
Para que as dificuldades motoras
e o estresse físico gerado pelo equipamento sejam minimizados, todos os itens
do sistema devem oferecer uma boa interação anatômica com o mergulhador.
Hidrodinâmica
Ser compacta e ter baixo arrasto são
características fundamentais da configuração. Assim o sistema irá facilitar os
movimentos do mergulhador, aprimorar seu deslocamento e reduzir o risco de
enrosco.
Compatibilidade
Por fim, o sistema deve permitir
sua utilização em diferentes ambientes de mergulho com o menor número de
variações. Variações que serão realizadas eliminando ou acrescentando itens
para cada ambiente específico sem que seja comprometida a mecânica geral de
como o sistema é utilizado.
Espero que a leitura tenha sido útil. Na próxima postagem desta série irei apresentar cada um dos componentes da configuração padrão de mergulho técnico.
Grande abraço, Carlinhos.

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