Aptidão Física - Benefícios para o mergulho
Benefícios da Aptidão Física
para o Mergulho SCUBA
Na postagem anterior sobre o tema [veja aqui] apresentei uma introdução
sobre aptidão física e sua relação com a saúde. Nesta postagem veremos de forma
mais detalhada os benefícios gerados por um adequado condicionamento físico
para o mergulho.
Menor Consumo de Ar/Gás
Mergulhadores com bom condicionamento físico apresentam menor consumo
de gás/ar para um mesmo nível de esforço físico do que mergulhadores com
condicionamento menor. Isto pode ser explicado pelo fato de que devido ao
aumento da capacidade cardiorrespiratória a necessidade energética para uma mesma
intensidade é reduzida fazendo com que o consumo de oxigênio nesta situação
seja menor.
Para um maior entendimento deste fato imagine dois mergulhadores
nadando a 15 m/min, um com um VO2 máximo de 60 ml/kg/min e outro com
45 ml/kg/min, aquele com a capacidade cardiorrespiratória maior irá utilizar
menos oxigênio (energia) para manter a velocidade citada. Outra forma de
explicarmos esta questão é analisando o valor submáximo de VO2
necessário para manter a velocidade de 15 m/min, imagine que para isso fosse
necessário um consumo de oxigênio absoluto de 20 ml/kg/min, desta forma para um
VO2 máximo de 60 ml/kg/min esse valor representaria 33% do VO2
máximo para o mergulhador mais condicionado e 44% para o outro mergulhador,
mostrando claramente a diferença de dispêndio energético.
Menor Risco de Doença
Descompressiva
Uma das respostas de um programa de treinamento cardiovascular e de
força aliado a uma dieta equilibrada é redução absoluta e proporcional da
gordura corporal, que pode ser considerada com um fator de risco para o
desenvolvimento e/ou aumento dos riscos de DD.
A uma maior quantidade de gordura corporal pode ser associada com um
maior risco de DD, como foi demonstrado por DEMBERT e Colaboradores (1984) que
encontraram uma maior probabilidade de DD nos mergulhadores que apresentaram
maiores quantidades de gordura corporal. Porém outro estudo (CURLEY e
Colaboradores, 1989) que avaliou a relação entre DD e o percentual de gordura
em 376 militares do sexo masculino não demonstrou maior incidência de DD em
mergulhadores com maior percentual de gordura.
No segundo estudo citado o percentual de gordura dos mergulhadores
estudados variou entre 13,3% e 17,7%, valores estes que se encontram dentro da
faixa recomendada tanto para indivíduos jovens como mais velhos, demonstrando
que quando o percentual de gordura corporal é adequado e os mergulhadores
apresentam níveis da aptidão cardiovascular semelhantes, o percentual de
gordura pode não ser um fator de risco para DD. Porém quando um elevado nível de
gordura corporal é associado com menor nível de resistência cardiorrespiratória
fazem com que os ricos de DD sejam aumentados significativamente (DEMBERT e
Colaboradores, 1984). Outra questão importante, ligada a gordura corporal, é o
fato de que mergulhadores com percentual de gordura maior do que 18% em
velocidades de subida entre 9-18 m/min apresentam maior formação de bolhas
extra vasculares, elevando o risco de DD.
Outro motivo pelo qual um maior condicionamento cardiorrespiratório
pode diminuir os riscos de DD estão relacionados com o surgimento de bolhas
extra vasculares. A relação entre a
quantidade de bolhas na circulação venosa e o risco de DD já foi demonstrado
por diferentes trabalhos científicos, tanto com animais quanto com seres
humanos. Como adaptações geradas pelo treinamento, capazes de diminuir o risco
de DD temos uma maior capacidade pulmonar de eliminação de gases inertes na
fase livre (bolhas) devido ao aumento do diâmetro dos capilares pulmonares e
também a capacidade de uma menor geração de bolhas na corrente venosa (gás
inerte na fase livre) para uma mesma velocidade de subida. Isso foi demonstrado
por CARTURAN E Colaboradores (2002), onde mergulhadores com VO2
máximo inferior a 40 ml/kg/min apresentavam maior formação de bolhas tanto em
subidas a 9 m/min como a 18 m/min, quando comparados com mergulhadores com VO2
máximo superior a 40 ml/kg/min.
Melhor Resposta a Problemas,
Situações de Estresse e Pânico
A redução da
frequência cardíaca e da frequência ventilatória em repouso são alterações
fisiológicas resultantes de um programa de exercícios, estas alterações podem
ser extremamente benéficas durante situações de perigo no mergulho SCUBA. Durante situações de alteração emocional são
geradas alterações fisiológicas que elevam a frequência cardíaca e a frequência
ventilatória fazendo com que nossa percepção de perigo aumente, o que por sua
vez gera um ciclo que continua elevando estas duas variáveis. Dessa forma
mergulhadores com maior condicionamento físico apresentam limites para estas
alterações maiores do que mergulhadores com menor aptidão física pelo fato de
terem uma capacidade de demanda física superior, isto os torna mais capacitados
para responderem a problemas e/ou situações de pânico.
Aumento da massa mineral óssea
Exercícios de
força apresentam como capacidade de gerarem aumentos da massa mineral óssea,
este tipo de alteração reduz o risco de fraturas durante o transporte de
equipamentos pesados como também diminui o risco de alterações óssea geradas
por DD, conhecida como osteo-necrose.
Aumento da produção de calor
durante o mergulho
A massa muscular corporal é fator determinante do consumo energético em
repouso e também da quantidade de calor corporal produzido. Associando uma
maior quantidade de massa muscular com alimentação e hidratação adequada o
mergulhador pode sofrer menos as consequências da exposição à água com menores
temperaturas.
Maior capacidade de lidar com os
equipamentos devido ao peso
Uma das situações com maior relação com dores na coluna lombar são as
situações onde um objeto relativamente pesado deve ser elevado ou transportado.
Isso normalmente ocorre, pois os indivíduos não possuem força, resistência,
flexibilidade e coordenação motora dos grupamentos muscular responsáveis pela
estabilização da coluna vertebral (principalmente da coluna lombar) durante
este tipo de movimento. Sendo assim, exercícios gerais e específicos para os
grupamentos musculares envolvidos trarão maior segurança para os mergulhadores
durante as tarefas de manuseio do equipamento de mergulho SCUBA, principalmente
quando uma maior quantidade de cilindros se fizer necessária como é o caso do
mergulho técnico.
Menor probabilidade de câimbras
Câimbra pode ser definida como uma repentina, localizada, involuntária,
sustentada e dolorosa contração muscular em parte ou na totalidade do músculo
afetado. As causas das câimbras podem incluir a desidratação, depleção de
eletrólitos (sódio e potássio), alteração no controle neuromuscular, fadiga
(gerando substâncias que estimulam as câimbras como amônia a ácido lático) e
fatores ambientais (frio ou calor excessivos).
As câimbras normalmente acontecem mais ao final de uma atividade
competitiva, exercício físico ou mergulho, no último caso pode tornar-se um
problema mais grave caso envolva alguma tarefa de retorno a embarcação ou ponto
de saída contra correntes e/ou condições adversas do mar. Nos mergulhadores os
músculos mais afetados pelas câimbras são os músculos da coxa (porção posterior
e interna), panturrilhas e musculatura intrínseca dos pés.
Além das causas para as câimbras nas atividades esportivas e
recreativas em geral, podemos no mergulho SCUBA incluir nadadeiras apertadas em
excesso, botas ou meias de neoprene mal ajustadas, tiras de nadadeiras que
apertem excessivamente o tendão do calcanhar e roupas de neoprene que diminuam
a circulação nos membros inferiores.
Considerando as informações científicas apresentadas até o momento,
temos que os fatores causadores das câimbras podem gerá-las em alguns casos,
mas outros não. Se tomarmos como princípio todas as causas citadas
anteriormente veremos que a melhor maneira de prevenção às câimbras está em um
conjunto de medidas. Esse conjunto envolve:
- Hidratação e alimentação adequada para o mergulho;
- Aptidão muscular geral (força, resistência e flexibilidade);
- Aptidão muscular específica (treinamento de natação);
- Uso de nadadeiras, botas e roupas de exposição no tamanho adequado.
Poderíamos explicar esse fato através dos problemas ocasionados com a
execução de alongamentos em um músculo “frio”, que apresentam resistência
aumentada pela baixa circulação sanguínea e potencial desalinhamento articular,
fazendo com que ganhos ótimos em flexibilidade não fossem atingidos. Além disso, também temos o fato de que
exercícios isolados de alongamento não são capazes de diminuir os riscos de
lesões em atividades esportivas.
Dessa forma, anteriormente a uma atividade de mergulho SCUBA uma
atividade de aquecimento que eleve a temperatura corporal (movimentos
articulares gerais, pequenos saltos ou mesmo corridas leves) seguidos de
alongamentos parecem ser o mais recomendado. Isso ocorre, pois quando um
músculo com temperatura elevada é alongado os benefícios musculares são
maiores.
É importante que fique claro que os trabalhos científicos têm
demonstrado que exercícios de alongamento realizados imediatamente antes a
pratica de diferentes atividades não são positivos, contudo diversos trabalhos
já demonstraram os benefícios de um programa regular de flexibilidade sobre o
risco de lesões e o desempenho. Isso significa que os benefícios estão na
pratica continua de alongamentos, ou seja, não adianta indivíduos sedentários
realizarem alongamentos somente antes dos mergulhos e esperarem que isto seja
suficiente para prevenção de problemas e/ou melhora no desempenho.
Se você ainda não participar de um programa de condicionamento físico e saúde, acredito
que esses sejam bons motivos para começar um.
Abraços e até mais...Carlinhos/Careca
carlinhos@planetamergulho.com.br
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