Planejamento de Mergulho - Tabelas ou Computadores
Quase em 100% das vezes que ministro o curso de formação inicial de mergulhadores [Open Water Diver], no momento em que ensino como utilizar as tabelas de mergulhos ouço o seguinte comentário:
"Esses cálculos são complexos! Parece muito mais fácil usar um computador de mergulho!"
Acredito que essa expressão represente uma verdade universal, sempre tentamos o caminho mais fácil para atingir um objetivo, e não que isso seja necessariamente uma coisa ruim. Porém em determinadas situações os motivos que nos levam a escolher o caminho mais fácil pode, no futuro, gerar situações negativas.
Vou explicar melhor o que disse no parágrafo anterior.
Quando escolhemos usar os computadores de mergulho porque eles são mais fáceis de usar do que as tabelas e optamos por não dominar os conhecimentos necessários para o uso correto das tabelas, existe um alguma chance de que possamos cometer erros na utilização dos computadores ou na interpretação das informações fornecidas e dessa forma aumentarmos os riscos.
Acredito que todos os mergulhadores que desejam diminuir os riscos fisiológicos de um mergulho deveriam dominar o usa das tabelas para que os computadores não se tornem muletas e assim assumir a responsabilidade pela sua segurança ao invés de deixar essa tarefa para um instrumento.
Também acredito que quanto maior o conhecimento sobre esse tema maior será a segurança e a diversão em qualquer tipo de mergulho. Em uma postagem anterior chamada Mecanismos Básico da Descompressão eu citei dois conceitos, a Razão Descompressiva e Descompressão Mínima.
A razão descompressiva é um sistema que
aplica determinadas regras para desenvolver uma estratégia de descompressão
para determinado perfil de mergulho. Estas regras são derivadas da combinação
de diferentes teorias descompressivas e softwears de descompressão com uma
metodologia de fácil utilização. Metodologia esta que envolve misturas
padronizadas, a utilização de janela de oxigênio e a consideração da fase de
gases livres e dissolvidos durante a descompressão. A razão de descompressão
pode ser utilizada em qualquer tipo de ambiente durante o transcorrer de um
mergulho de forma simples, o que permite ajustes ao planejamento quando
necessário [cálculos “on fly”].
Descompressão Mínima
O conceito
de limites não descompressivos (LND), parte da ideia de que se mantendo dentro
de determinados limites de tempo para determinadas profundidades os
mergulhadores podem deixar o fundo e ir diretamente até a superfície sem a
necessidade de nenhum tipo de procedimento descompressivo. Este conceito faz
sentido dentro dos modelos descompressivos que consideram somente os gases
inertes dissolvidos como responsáveis pelo surgimento de sintomas de doença
descompressiva, onde se determinados os valores de absorção de gases inertes
não são extrapolados o mergulhador não necessita parar aos 3 metros ou mais
fundo durante a subida até a superfície.
Estes
modelos descompressivos não levam em consideração o fato de que algumas
experiências mostram que mesmo dentro dos LND os mergulhadores podem apresentar
bolhas em sua corrente sanguínea venosa, mesmo não apresentando sintomas de
Doença Descompressiva. Considerando a fase livre dos gases nos modelos
descompressivos, atualmente um conceito onde todos os mergulhos apresentam a
necessidade de algum tipo de procedimento descompressivo foi desenvolvido,
chamado de Descompressão Mínima.
Este
conceito diz que quando o mergulhador se mantém dentro do LND ele necessita
realizar um procedimento descompressivo mínimo que consiste da observação de
velocidades de subida menores do que os tradicionais 18 metros/minuto. Esse
procedimento mantém uma velocidade de 9 metros/minuto até 50% da profundidade
máxima do mergulho e a partir deste ponto a velocidade é reduzida para 3
metros/minuto. Uma forma simplificada de reduzir a velocidade de subida para 3
metros/minuto é parar 1 minuto a cada 3 metros a partir da profundidade
equivalente a 50% da profundidade máxima do mergulho.
Limites de Descompressão Mínima
A tabela abaixo mostra os limites de
descompressão mínima (LDM) para as profundidades de até 33 metros, usando AR ou
EAN32.
Exemplo de mergulho dentro do limite de
descompressão mínima
Um mergulho a 30 metros de
profundidade utilizando EAN32 com um tempo de fundo de 30 minutos teria o
seguinte padrão de subida:
- 30 metros / 30 minutos
- 30-15metros / 1-2 minutos de subida
- 15 metros / 1 minuto
- 12 metros / 1 minuto
- 9 metros / 1 minuto
- 6 metros / 1 minuto
- 3 metros / 1 minuto
Por sua vez um mergulho a 24
metros de profundidade utilizando EAN32 com um tempo de fundo de 45 minutos
teria o seguinte padrão de subida:
- 24 metros / 45 minutos
- 24-12metros / 1-2 minutos subindo
- 12 metros / 1 minuto
- 9 metros / 1 minuto
- 6 metros / 1 minuto
- 3 metros / 1 minuto
Quando os mergulhos são
realizados dentro dos LDM somente é utilizada uma única mistura respiratória,
AR ou EAN32.
Considerações Finais
Minha intenção em divulgar a Razão Descompressiva e a Descompressão
Mínima não é para que os mergulhadores deixem de usar tabelas e computadores de
mergulho e passem somente para a utilização desta metodologia de planejamento
de mergulho. Minha intenção é divulgar a importância da busca por conhecimento
para que nossos mergulhos sejam seguros e divertidos.
Nada impede que um mergulhador utilize os limites de tempo de sua
tabela preferida ou realize um mergulho multinível com computador e juntamente com isso aplique os conceitos de Descompressão Mínima. Isso no máximo irá
agregar conservadorismo ao padrão de subida, o que pode em última análise
significar mais segurança e diversão.
Links para maiores informações sobre Razão Descompressiva:
http://www.frogkick.nl/files/gue_ratio_deco.pdf
Grande abraço...Carlinhos/Careca
carllinhos@planetamergulho.com.br


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