Acidentes de mergulho como um sistema de eventos.

Normalmente consideramos o "erro humano" como a causa de um acidente de mergulho, principalmente porque nos faltam detalhes sobre o que realmente aconteceu. É uma reação humana normal nos distanciarmos do acontecimento atribuindo a alguém a culpa e dizermos que não teríamos cometido determinados erros.

Mas responsabilizar uma ou mais pessoas e fechar os olhos para a questão sistêmica do evento não irá ajudar a determinar as causas verdadeiras do fato e nem mesmo contribuir para uma análise efetiva de acidentes, que por fim proporcionará a criação de procedimentos e/ou técnicas que realmente possam prevenir um acidente.

Uma análise do acidente como um sistema de eventos pode ser feita aplicando um modelo chamado de Modelo do Queijo Suíço. Esse modelo foi desenvolvido pelo professor James Reason e descrito no seu livro Human Error.

O Modelo do Queijo Suíço

Este modelo se caracteriza pela implementação de um processo linear pelo qual camadas defesas (pedaços de queijo) são implementadas por organizações, supervisores e indivíduos para evitar que eventos adversos venham a ocorrer. Contudo, como nada é perfeito, essas camadas apresentam orifícios (furos do queijo Suíço), permitindo que erros as “atravessem’” em uma determinada trajetória.

As camadas consistem em itens como cultura organizacional, processos e procedimentos, supervisão e liderança, gerenciamento de fadiga e estresse, equipamentos e design de sistemas e recursos humanos e técnicos adequados, tudo com o objetivo de reduzir a probabilidade de um acidente.

O modelo é dividido em duas partes, condições latentes e falhas ativas.

Falhas ativas

São consideras falhas ativas os atos inseguros cometidos por mergulhadores que estão participando diretamente da atividade de mergulho em questão. As falhas ativas podem se caracterizar por deslizes, lapsos, erros e violações. No mergulho, isso pode ser a incapacidade de doar gás no caso de uma emergência de falta do mesmo, pela falha em  administrar corretamente o suprimento de gás ou interpretar de forma inadequada um computador de mergulho.

Condições Latentes

As condições latentes podem gerar erros dentro do sistema de forma imediata, dentre essas temos como exemplo um equipamento inadequado, um mergulhador cansado ou falta de experiência para determinado tipo de mergulho. 

Os efeitos negativos das condições latentes também podem gerar deficiências em longo prazo nas defesas e se caracterizam por indicadores não confiáveis, procedimentos inadequados, e deficiências de projeto e fabricação de equipamentos. 

As condições latentes podem ser passivas e dessa forma somente serem percebidas dentro do sistema depois de muito tempo permitindo que elas se combinem com as falhas ativas para criar a oportunidade para um acidente.

De forma simplista o modelo demonstra que somente quando todos os buracos estão alinhados, um acidente ocorre. Como os seres humanos são de natureza variável e tanto o mundo quanto o mergulho apresentam uma característica dinâmica, os orifícios das camadas de defesa (buracos do queijo) se movem e também mudam de tamanho.

Essa dinâmica das barreiras de defesa e seus orifícios faz com que as barreiras posteriores do sistema possam evitar que um erro percorra a trajetória até um acidente. Na grande maioria das vezes a barreira de defesa final é o mergulhador. O vídeo a seguir mostra o modelo em ação.


Grande abraço, Carlinhos.

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