Fatores Humanos - Parte 2
Pedro e Antônio são dois mergulhadores com cerca de 5 anos de experiência, haviam completado o curso TEC 45 há 2 meses em Bonaire, onde puderam realizar diversos mergulhos nas cristalinas águas caribenhas.
Os dois são reconhecidamente dois mergulhadores com um excelente nível técnico, controlam efetivamente a flutuabilidade, dominam as habilidades de montagem do equipamento e também diferentes técnicas para solucionar emergências, como a uma repentina falha no suprimento de ar/gás.
Eles planejaram um mergulho descompressivo em naufrágio que está aos 44 metros de profundidade, a mistura de fundo foi Nitrox27 e a visibilidade estava entre 2 e 3 metros, sendo necessário o uso de lanternas. A descida foi realizada através de um cabo, à medida que desciam a lanterna de Antônio falhou e os dois trocaram de posição, ficando Pedro a frente durante a descida.
Devido à visibilidade restrita e a falha de uma das lanternas, eles demoraram alguns minutos para encontrar o naufrágio, após alguns minutos de natação eles perceberam que estavam na parte interna do naufrágio e sem uma spool/carretinha para guiar a sua saída.
Neste momento os dois mergulhadores entraram em pânico, Pedro perdeu sua máscara e não possuía uma reserva. Por sorte e sem saber como, Pedro conseguiu encontrar o caminho para fora, mas não encontrou Antônio. Ainda estressado e respirando pesadamente, ele procurou um pouco pelo amigo, com o medo de ter que contar a esposa de Antônio sobre a sua morte, soltou seu DSMB e iniciou sua descompressão de 30 minutos.
Chegando a superfície, Pedro viu que Antônio já estava na embarcação e havia realizado a subida sem completar a descompressão necessária. Os dois mergulhadores foram para o centro de medicina hiperbárica mais próximo para realizar uma avaliação médica e o tratamento que viesse a ser necessário.
- O planejamento falhou no que diz respeito as contigências, já que nenhum dos dois esperava que algo de errado acontecesse. Como eles não planejavam fazer penetração no naufrágio, não levaram consigo uma spool/carretilha, e também não imaginaram que pudessem, mesmo que sem querer, entrar no naufrágio devido a visibilidade reduzida;
- Falharam na verificação de equipamentos, já que a lanterna do Antônio havia sido consertada alguns meses atrás. Mesmo com a falha de uma das lanternas, eles resolveram continuar o mergulho e não consideraram a visibilidade reduzida;
- Ambos os mergulhadores viajaram dois dias para chegar ao local de mergulho e não queriam perder essa oportunidade, ainda mais ao considerar todo o investimento financeiro realizado;
- Devido ao uso de uma mistura de Nitrox27, sem acréscimo de Hélio, o nível de narcose diminuiu a consciência situacional dos mergulhadores, fazendo com que eles não percebessem que estavam entrando no naufrágio;
- Devido à experiência anterior, eles somente consideraram que ao não ver o casco do naufrágio, eles haviam se afastado do naufrágio e não puderam notar a existência de um enorme buraco no casco. Fato que foi também potencializado pela narcose, levando a uma tomada de decisão equivocada;
- Níveis excessivos de estresse causados pela narcose e visibilidade restrita, que contrastavam com as condições de mergulho experimentadas durante o treinamento de TEC 45. Onde os mergulhos foram realizados com visibilidade de 30 metros e com uma msitura de Trimx 21/35, que na profundidade de 44 metros gera uma profundidade equivalente narcótica de 25 metros.
Durante muitos anos as agências de treinamento, escolas de mergulho e os fabricantes de equipamento têm adotado inúmeras iniciativas para tornar o mergulho mais seguro e divertido. As iniciativas realizadas envolvem o desenvolvimento das habilidades técnicas dos mergulhadores e instrutores, assim como, o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos equipamentos. Contudo, poucas inciativas têm sido realizadas tendo como objetivo o desenvolvimento das habilidades não técnicas, que são vitais para que decisões corretas sejam tomadas dentro de uma equipe de mergulho.
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| Interação das habilidades não técnicas |
E vital que as habilidades não técnicas sejam compreendidas com um conjunto de habilidades que quando interagem corretamente, aumentam de forma significativa a efetividade do trabalho em equipe e a segurança do mergulho.
A interação das habilidades não técnicas mostra que a tomada de decisão
é a habilidade que desejamos alcançar. Ela é alimentada pela consciência
situacional, que nos faz perceber, processar e projetar as informações
coletadas. Por sua vez a consciência situacional relevante precisa de uma comunicação
eficaz entre todos.
A tomada de decisão, a consciência situacional e comunicação são
apoiadas por uma equipe de mergulho eficiente e por uma boa liderança. Por
último, e de grande importância, precisamos considerar que todas as habilidades
não técnicas serão negativamente impactadas pelo estresse e pela fadiga, fazendo
com que os benefícios obtidos sejam comprometidos.
Quando as habilidades não técnicas são bem empregadas, como veremos a seguir, elas efetivamente aumentam a segurança e a diversão.
Ernesto acabara de concluir seu curso de Divemaster e pela primeira vez iria participar de uma operação de mergulho com o capitão Marçal. Naquele dia a embarcação teria 6 mergulhadores, dois deles eram Marcelo e Sofia, que com sucesso haviam completado o curso de Roupa Seca, juntamente com o curso Deep Diver que os certificará para mergulhar dentro dos limites não descompressivos até os 40 metros.
Ernesto estava ansioso para coordenar sua primeira operação de mergulho, ainda mais tendo sido planejado um mergulho em corrente com a profundidade máxima de 30 metros. Por sua vez, o Capitão Marçal estava um pouco preocupado com as condições de mergulho que se apresentavam, parecia que a ondulação estava aumentando. Considerando que Marcelo e Sofia haviam ido bem durante seu treinamento, que os outros mergulhadores presentes eram experientes e que entre eles estavam José e Fernando, dois mergulhadores técnicos com grande experiência, Marçal resolveu continuar a operação como planejado.
Chegando ao local de mergulho, havia uma ondulação capaz de desconfortavelmente balançar a embarcação. Enquanto Fernando montava seu equipamento, ele notou que Marcelo e Sofia estavam apreensivos e com dificuldades para realizar tarefas simples como conectar a mangueira de baixa pressão ao colete equilibrador ou fixar os mosquetões dos manômetros ao D’ring da cintura da cintura do CE. Eles também pareciam pálidos e com tremores.
Fernando procurou o Divemaster e perguntou se ele havia notado o aumento de estresse experimentado por Sofia e Marcelo. Ele sugeriu que Ernesto perguntasse aos dois se eles desejavam fazer um mergulho mais raso e em um local mais abrigado que ficava a cerca de 5 minutos de onde estavam e também o lembrou, que era seu dever alterar o planejamento da operação se ele acreditasse que isso aumentaria a segurança dos mergulhadores.
Ernesto entendeu os conselhos e as dicas de Fernando e de forma calma e profissional, sentou-se com o casal e propôs que eles realizassem um mergulho mais raso, já que esse era o primeiro mergulho com roupa seca depois do curso e as condições de mergulho eram muito mais complexas do que aquelas encontradas durante os mergulhos de treinamento para obter a certificação.
A conversa com o Marcelo e Sofia foi importante, pois os dois relataram para Ernesto que eles estavam envergonhados em dizer a ele e aos mergulhadores mais experientes, que ambos estavam preocupados com as condições de mergulho.
O plano de mergulho foi modificado e todos foram para uma baía abrigada com condições perfeitas e sem movimento da ondulação. Chegando ao novo ponto de mergulho, Sofia e Marcelo relaxaram e rapidamente corrigiram os erros cometidos durante a preparação dos equipamentos. O casal usou o mergulho para aprimorar suas habilidades com a roupa seca e também praticar a subida usando o DSMB.
Após o mergulho, conversando com Ernesto, o casal concluiu que precisavam fazer mais mergulhos rasos para se habituarem às novas condições até se sentirem mais à vontade com esse tipo de condição. De forma conservadora, eles definiram 15 metros como seu limite de profundidade até se sentirem mais confortáveis com o uso da roupa seca.
Ao considerarmos esse último caso, é possível notarmos os seguintes aspectos positivos:
- A consciência situacional foi usada para ser identificado que Marcelo e Sofia estavam apreensivos e que seu comportamento não era normal.
- Fernando, devido a toda sua experiência anterior, possuía um modelo mental de segurança que garantiu a ele a capacidade de reforçar ao Divemaster que as coisas não estavam ocorrendo com deveriam ocorrer com o casal;
- Boa capacidade de liderança mostrada por Ernesto, ao efetivamente se comunicar com Sofia e Marcelo, permitindo que eles expressassem o seu desconforto e preocupação, e dessa forma o problema pudesse ser solucionado.
- Discussão pós-mergulho que levou a uma tomada de decisão eficaz realizada por Marcelo e Sofia, limitando as condições de mergulho até que adquiram mais experiência.
Espero que a segunda postagem sobre fatores humanos seja útil.
Grande abraço, Carlinhos.
Referências
Lock G. 2019. Under Pressure: diving deeper with human factors. ISBN 978-1-9995849-7-6
Flin R, et al. 2008. Safe at the sharp end: a guide to non-technical skills. ISBN 978-0-7546-4598-6

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